Eu venho de longe e não ando só – 20 Anos do GT Educação Popular em Saúde

De 2000 a 2020, o Grupo Temático Educação Popular em Saúde completou duas décadas e teve nesse período cinco diferentes coordenações que apresentaram e marcaram outras formas de entender o cuidado em saúde e promover a participação social na história da saúde coletiva e da própria Abrasco.  Em homenagem a esse marco, esta matéria é um pequeníssimo extrato de uma extensa troca – de memórias, de ideias, de projetos vividos e futuros – registrados em arquivos de áudio pelos coordenadores, sistematizados pela Comunicação Abrasco, e devolvidos ao GT para tecer mais detalhes em produções futuras. Ao fim, o painel de celebração realizado dentro da programação da Ágora Abrasco, em 4 de dezembro e transmitido pela TV Abrasco, nosso canal no YouTube. Mergulhe no texto e assista aos depoimentos das e dos fazedores dessa história.

2000 – 2006: Origens e fundação: Frutos da interação da história, uma série de movimentos de caráter associativo difuso surgiram no país a partir da década de 1970, com a cassação de partidos políticos e sindicatos. A própria Abrasco é fruto desse movimento, assim como diversos grupos locais de educação popular. Com o passar do tempo, foram se conhecendo e se articulando. Já na década de 1990 a Rede Nacional de Educação Popular em Saúde – Redepop – ganhou contornos próprios, e dinamizou uma troca mais sistemática e regular entre esses grupos, nos quais já se incluíam grupos de pesquisa sediados em universidades.

Em paralelo, a eclosão dos movimentos sociais de portadores de HIV/Aids e a pressão dos mesmos por reconhecimento de suas pautas e existência, e o processo de constituição do Sistema Único de Saúde foram elementos decisivos para que, dentro da Redepop, grupos e pessoas da Saúde Coletiva buscassem uma maior sinergia de ações.

“Tínhamos a bagagem, a vontade e o desejo de aprofundar e continuar agindo. Para isso, era importante o respaldo institucional. Além da educação popular em saúde, esse grupo tinha essa identificação dentro da Saúde Coletiva. Alimentado pela pulsão de participação na vida do país, propusemos à Abrasco a criação do Grupo Temático, que foi prontamente aceita”, explica José Ivo Pedrosa, então professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Piauí (FM/UFPI), fundador e primeiro coordenador do GT.

Sistematizar experiências, identificar os processos de formação que aconteciam na perspectiva da Educação Popular dentro dos programas de Saúde Coletiva; estimular a participação de pessoas nos eventos da Abrasco, e influenciar na forma de organização e de gestão de recursos humanos para a área da saúde foram os primeiros desafios abraçados pelo GT.

Num movimento auspicioso e em cadeia, a criação do GT foi central para os desdobramentos da temática em outras áreas e instituições. Em 2003, a Educação Popular em Saúde ganhou uma coordenação técnica dentro do Ministério da Saúde. Uma das primeiras atividades dessa coordenação foi elaborar um mapeamento dessa rede de atores e atrizes populares e de conhecimentos tradicionais organizados em torno de práticas de saúde. A partir dessa identificação e no diálogo entre essas organizações surgiu a Aneps – Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde. Um outro braço de ação ministerial estimulou a criação de comitês de Educação Popular em Saúde em municípios que não tinham entidades e movimentos organizados.

Entre tantas formações e trajetórias das pessoas que constituíram essa teia, José Ivo destaca a amálgama do pensar e fazer saúde na qual o outro é o sujeito, protagonistas e ativos de conduzir e escrever a história de suas vidas e de seu trabalho. Isso se reverteria na própria Abrasco, já na primeira participação do GT nos congressos da Associação.

A estreia foi no 8º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva e 11º Congresso Mundial de Saúde Pública), que contou pela primeira vez com a Tenda Paulo Freire, e estabelecer as primeiras rodas de conversa como forma de apresentação de trabalhos. Inspirada na iniciativa dos estudantes da Saúde lançada na primeira edição do Fórum Social Mundial, o espaço ofereceu uma alternativa de respiro em um grande congresso realizado num centro de convenções enorme e, por isso, avaliado por muitos como inóspito.

“Foi um movimento muito importante, pois propiciou a diversidade, o que teve efeito na própria organização dos congressos da Abrasco para propiciar espaços alternativos. Devido ais custos, membros do GT redigiram a Carta Abraço à Abrasco, com o intuito de dar vida e promover diálogo entre estudantes e demais sujeitos. Isso resultou no fortalecimento do próprio GT na estrutura da Associação. Contribuímos para a participação e a abrangência que a Abrasco hoje consegue ter”, avalia José Ivo.

2006 – 2011: Afirmação: Docente da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Facenf/Uerj), Helena Leal David assumiu a coordenação do GT a partir do 8º Congresso. Toda a mobilização promovida pelo “Abraço à Abrasco” ainda reverberou por um tempo no início da sua gestão. “Havia uma maior mobilização dos movimentos das práticas populares para participar mais dos eventos da Abrasco por meio do GT. Dentro da Abrasco ainda precisávamos negociar com muito tato, mas cada vez mais isso tornou-se tranquilo. Peguei o final da gestão do professor Carvalheiro à frente da Associação, que teve sensibilidade para as questões por nós apresentadas nos eventos seguintes”, ressalta Helena

A Política Nacional de Educação Popular em Saúde (PNEPS-SUS) começava a ganhar contornos, ainda que sua publicação demorasse um pouco mais tempo. Os comitês de equidade serviram de modelo inicial de experiência, e a presença de integrantes e parceiros do GT nas estruturas de Brasília mobilizaram propostas e embates de visões diferentes em saúde

“Houve resistências e questionamentos, com sugestões de apoio a ações apenas pontuais, dado que quando se conforma uma política nacional em educação popular em saúde passa-se a ter uma maior visibilidade e uma destinação regular de recursos para ampliar nos níveis locais essas ações”, aponta a abrasquiana, explicando o interesse na capilarização das ações e as resistências encontradas.

Em meio a preocupações com capturas e as burocracias para operacionalização das ações, Helena aponta ainda como marcos os seminários regionais da política nacional, realizados nas cinco regiões nacionais entre 2009 e 2010. Com metodologias próprias para a escuta dos movimentos, tiveram expressiva participação. “Se por um lado as ações do Ministério permitiam a capilarização de cima para baixo, da estrutura do Ministério ao nível local; esses seminários proporcionaram essa capilaridade de baixo para cima, pois pôde reunir um número expressivo e representativo de pessoas com atuação nos territórios e nos serviços”.

A junção dessas duas pontas, para Helena, mostra um período de grande dinamismo do GT Educação Popular e consolidação das formas de diálogo. A presença de Luiz Augusto Facchini já como presidente da Abrasco em reunião com o GT na Tenda Paulo Freire no 9º Abrascão, no Recife, foi uma demonstração de amadurecimento nessas relações.

“O GT foi progressivamente ampliando o diálogo e participação nos eventos da Abrasco e para além dos próprios eventos. Nossa participação é mais efetiva nos debates gerais e elaboração de documentos, assim como a direção apoia as ações do GT. O contato direto com os movimentos das práticas populares, que se deslocam de seus locais para participar dos eventos acadêmicos nos coloca como mediadores e traz um desafio importante. Não me esqueço de uma amiga de movimento, profissional do serviço, em afirmar que é na Tenda que ela se encontra, se sente à vontade e tem seu refúgio dentro de um evento acadêmico. As pessoas passaram a entender isso, a importância dessa participação para os eventos, tornando-as mais dinâmicas e afirmado um compromisso com o GT e as Tendas”, detalha Helena.

2011 –2016: Solidificação de utopias: A passagem do bastão da coordenação para Júlio Wong Un coincidiu com a culminação de vários processos iniciados nos primeiros dez anos. “Recebi da Helena uma encomenda muito bem trabalhada. O que aparecia no nosso horizonte apoiávamos e tentávamos avançar. Com isso, fomos transformando o olhar da Academia sobre a Educação Popular”, avalia o professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal Fluminense (ISC/UFF).

Um desses processos foi a aprovação da PNEPS-SUS, em 2013, sobre o qual Wong também destaca a participação central do GT. “Foram muitas mãos e cabeças na construção de quase 2 anos dessa política, que foi aprovada por proclamação no CNS, em 2013. O comitê chegou a ter mais de 30 entidades representativas”. A construção dessa política permitiu diálogos muito ricos entre os movimentos e a gestão da então Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa (SGEP/MS).

Apesar da boa recepção, a PNEPS-SUS não chegou a se transformar numa política atuante com um orçamento verdadeiro. “O nosso SUS valoriza muito a autonomia, o que é bom e ruim, pois permite uma liberdade de interpretação das políticas, muitas vezes utilizada de forma negativa”, ressalta.

O convite de compor a área de projetos da Secretaria Executiva da Abrasco em simultâneo à coordenação do GT possibilitou a consolidação da área junto ao conjunto de campos disciplinares que compõem a Saúde Coletiva e a Associação.

“Há saberes que, por uma razão de mercado simbólico, são colocados na periferia dos conhecimentos. A Educação Popular em Saúde tem subvertido esse lugar, com muita teimosia boa, projetos e sonhos. E claro, suas fraquezas e particularidades. Diálogos transversais entre saúde da população negra, dos e das LGBTs, das questões de religiosidade e de gênero eram pouco comuns até o lançamento e consolidação das Tendas Paulo Freire. Acredito que não havia uma consciência de que o pensamento de vanguarda bebe em fontes ancestrais e de formas simples, historicamente desprezadas. Aprendi muito nesse período dentro da Secretaria Executiva da Abrasco; foi um tempo muito bonito.  Junto com a própria trajetória, A Educação Popular em Saúde foi ganhando foi uma maior igualdade frente aos demais saberes, sem perder sua singularidade de beber de muitas fontes, sendo crítica sem se deixar endurecer, sem perder a capacidade de encantamento. Conseguimos sobreviver ao poder respeitando e valorizando o outro”, destaca Wong.

Fechamento de novos ciclos, mudanças de perspectivas e o ingresso na equipe coordenadora do curso de aperfeiçoamento, e depois programa de qualificação em Educação Popular em Saúde levaram à uma nova coordenação, construída no 7º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (7º CBCSHS).

2016 – 2019: Ampliação do arco de ação: A primeira inovação desse novo período foi a definição de uma coordenação colegiada na condução dos trabalhos do Grupo. “A Educação Popular em sua proposta teórica e metodológica defende justamente a ideia de trabalhos compartilhados, permitindo que as potencialidades das pessoas agreguem nuances e que vão atuar na riqueza e complementaridade do próprio grupo, superando as lacunas e limites dos indivíduos” ressalta Pedro Cruz, professor do Departamento de Promoção da Saúde da  Universidade Federal da Paraíba (DPS/UFPB), que compôs a coordenação colegiada junto com Vanderleia L. Pulga, professora da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), e Maria Rocineide Ferreira da Silva, docente da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

No entanto, antes mesmo do início oficial, o Grupo Temático já havia dado passos rumo à ampliação do seu arco de ação institucional. Em 2015, no processo de construção de uma oficina do 11º Abrascão e preparatória do 7º CBCSHS, em Cuiabá, o Simpósio da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde dedicado ao tema da Extensão Universitária mostrou uma confluência de intenções entre a Comissão e o GT. “Mesmo sem o nome oficial, percebeu-se que a Comissão da área já vinha construindo caminhos e possibilidades de valorizar conhecimentos socialmente compromissados e a vocalização dos sujeitos do movimento social e popular na produção de alternativas e conhecimentos e experiências, que são um agir crítico em saúde tão legítimo quando o dos intelectuais da Saúde Coletiva, produzido no cotidiano das comunidades e atuações”, reforça Pedro em nome da coordenação.

Essa afinação gerou o convite para a participação de Pedro Cruz na Comissão Científica do Congresso de Cuiabá, e posteriormente, na liderança da Comissão de Organização do Congresso de João Pessoa, em 2019, que teve uma construção bastante pulsante em torno da perspectiva teórico-pedagógica-metodológica e política da Educação Popular. A importância desse processo fez o GT realizar reuniões virtuais periódicas a cada 3 meses para uma melhor organicidade e fluência das ações do coletivo.

Outra marca dessa coordenação foi a ampliação da produção acadêmica da área temática. Chamada de coletâneas, produções conjuntas entre integrantes do GT e de fora dele e construção de relatos de experiências de processos político-formativos têm, no olhar apresentado, o papel de deixar claro que a Educação Popular em Saúde, mais do que um grupo temático, é uma forma própria de pensar e agir em confluência com o conjunto de saberes que formam a Saúde Coletiva, num caráter transversal. “Buscamos construir essas publicações para promover e aprofundar esse diálogo, trazendo o nosso olhar. Ele não é o único, nem melhor nem o finalizado, mas expressa uma perspectiva crítica, dialógica e, freirianemente, amorosa”, explica Cruz.

A virada na agenda pública a partir de 2015 e o ataque cerrado e sistemático às políticas sociais foi sentido diretamente pelo GT pelo processo de desmobilização das estruturas produzidas no contexto da PNEPS-SUS e demais medidas, colocando novas tarefas no horizonte. “Percebemos a necessidade de defender a Política no que fosse possível, entendendo todo esse processo como uma conquista histórica do movimento e da população brasileira mesmo com suas limitações , mas valorizando suas singularidades, como a construção participativa”, frisa o docente, indicando que o GT também fez uma autoreflexão crítica, entendendo que muitas vezes priorizou a construção institucional da Política, deixando de lado a ativação de seus princípios nas bases do movimento. Uma implementação na prática, por meio do trabalho de revitalização e valorização dos grupos de EPS e suas singularidades tem sido a tônica debatida no conjunto da Redepop, Aneps e, claro, do GT.

A partir de 2019: Tempo presente que se tece futuro: A realização do 2º Seminário Temático do GT Educação Popular em Saúde da Abrasco na prévia do VI Encontro Nacional de Educação Popular em Saúde (ENEPS), em fevereiro de 2020, oficializou a atual coordenação colegiada, composta por Luanda Lima, doutoranda do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz); Renata Pekelman, médica de família e comunidade do Grupo Hospitalar Conceição, e Vera Dantas, médica da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará.

Neste ano de 2020, em que o GT faz 20 anos, a pandemia de Covid-19 mudou por completo o cenário das ações e relações. A adversidade, no entanto, não deixou o GT parado. Pelo contrário: dentro da estratégia de comunicação Ágora Abrasco, o GT propôs e construiu conjuntamente 4 diferentes sessões, incluindo a de Aniversário. Junto às novas discussões trazidas pela conjuntura, o Grupo vem ampliando os debates nessa grande roda, relacionando temas como o Bem Viver, a deconialidade, a equidade em saúde, entre outros.

A linha de continuidade – inovação entre as coordenações prossegue: “Há um envolvimento com diversos eventos e entidades no sentido de se fortalecer tanto o campo da Educação Popular como o nosso coletivo”, aponta Vera Dantas. “A Abrasco se fortaleceu por dentro, para se fortalecer para fora, e ficamos muito felizes de contribuir nesse processo, em ter trazido pessoas de fora da Saúde Coletiva, para ampliar diálogos e olhares”, destaca Renata Pekelman. “Uma das estratégias que marca nosso GT é essa necessidade de comunicar com os pares e fazer novas formas de divulgação e de ampliação de linguagens. Isso abre e apresenta nosso debate para novos e outros públicos” diz Luanda Lima ao apresentar o Boletim do GT, lançado em agosto, trazendo para esse texto apenas algumas ações e ideias já encampadas pelo atual colegiado gestor.

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Realizado em 4 de dezembro dentro da programação da Ágora Abrasco, o painel de celebração desses 20 anos contou com a presença dos coordenadores entrevistados e de outros nomes centrais nesta história: Eymard Vasconcellos, Oswaldo Bonetti, Waldenez Oliveira, Cesar Paro, Antonio Cyrino, e Victor Valla, in memorian.

Assista, relembre e celebre. Vida longa ao GT Educação Popular em Saúde!

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