‘Saudação a Carybé’ – por Daniella Guimarães de Araújo


Na noite de abertura do 7º Simpósio Brasileiro de Vigilância Sanitária, a coordenadora da Comissão Cultural do simpósio, Daniella Guimarães Araújo redigiu um texto em homenagem ao artista Carybé, autor da obra ‘Puxada de rede’ que deu origem a logomarca do 7º Simbravisa. Daniella é atualmente editora da revista científica Vigilância Sanitária em Debate: sociedade, ciência & tecnologia do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz, e faz parte da coordenação colegiada do Grupo Temático de Vigilância Sanitária da Abrasco. Confira o texto na íntegra:

Nesta noite inaugural do 7º Simbravisa, saudemos Hector Julio Páride Bernabó ou simplesmente o artista Carybé. Este pseudônimo, emprestado dos indígenas, significa: alimento preparado com a polpa do abacate ou mingau de farinha fina. A palavra alimento deriva-se do latim alere: alimentar; fazer crescer; animar.

Então, saudemos Carybé !

Esta inspiração – alimento .

E por meio dele , saudemos toda essa gente baiana que ele retratou, pintou, esculpiu e desenhou numa versatilidade sem tamanho, prodigiosa.Vasta como seu coração.

Saudemos essa gente baiana que ele tanto amou.

Carybé, em suas inúmeras obras, deixou a marca do cotidiano de homens e mulheres comuns, que vendiam nos mercados, dançavam nas ruas, amavam seus parceiros , celebravam nos terreiros. Deu-nos pela via da arte,o dia a dia das gentes humildes, vendedores de rua, lavadeiras, prostitutas, os que gingavam seus corpos. Mulheres carregando cestos, incessantes na lida da sobrevivência e também os cangaceiros, os meninos brincando, festa de pirulitos e cata-ventos, aos ventos.

Carybé, coloriu a Bahia com cores mais fortes, deu-nos a graça do seu ritmo, o movimento de suas esquinas, suas notáveis arquiteturas , o entardecer no porto…cores desse céu e mar que quando quebra na praia é bonito é bonito… E também tantos pescadores e canoeiros e marinheiros.Cavalgadas, travessias e ventanias. Negras e mulatas e índios, batucadas e capoeiras. Vilarejos, agrestes e cerrados.Toda esta imensa Bahia!

Deu-nos a diversidade no âmbito do sagrado:a religiosidade dos terreiros aos quais ele também se afeiçoou e celebrou com admirável respeito. As sete portas da Bahia… os orixás… acarajé de Iansã… ouro de Oxum, azul de Iemanjá.

Deu-nos a graça do convívio com os mais simples e os mais eruditos, na alma aberta de menino – cidadão do mundo. Nesse enamoramento tão visceral com a Bahia preencheu telas e sonhos com a africanidade desse povo, sua espiritualidade, sua gentileza , suas redes e jangadas e peixes, a poesia dançante dos corpos livres.

Carybé: Alimento!

Alimento, que é também numa coincidente analogia , para onde se dirige o olhar mais básico da vigilância sanitária nas cidades. Alimento, tão expressivo para ele, que dizia que “ao chegar numa cidade deveria se conhecer primeiro feiras e mercados, só depois os museus. “O feitiço da Bahia começa pela cozinha.” Você só se alimenta de comidas sagradas” disse ele a Clarice Lispector.

Grande Carybé, Salve hoje Você ! – que nos ensinou a reconhecer e amar ainda mais essa cultura de múltiplas belezas. Salve Você, obá de Xangô, amigo irmão do escritor Jorge Amado, do antropólogo Verger, do músico Dorival Caymmi, amigo de tantos outros seres comuns, em tantas geografias .

Se a capoeira deixou os guetos, o candomblé tornou-se menos invisível e a arte disseminou-se em ladeiras e becos, certamente foi também pela magia das suas mãos. Se as velhas senhoras sacerdotisas foram ouvidas e o xaréu dos puxadores de rede mais vistos, foi também por obra sua.

Você expressou desigualdades.

Salve a terra de São Salvador, o trabalho e a poesia dos seus traços.

Salve a puxada da rede, nosso símbolo nesse 7º Simbravisa.

Que todas estas obras em telas e aquarelas, esculpidas e desenhadas, tornadas gradis e portais, possam inspirar nossa criação durante estes dias, nós, que somos criadores de saúde coletiva. Nós que temos avidez por mudanças sociais benéficas em tempos desafiantes. Que sua enorme força criativa nos inspire a reconhecer e respeitar a diversidade de mulheres e homens e a comum unidade de todos, em tempos de muros e refúgios.

Como você, Carybé , reconheceu , respeitou, acolheu e celebrou…

Bahia de todos nós!

Por esta arte civilizatória que enche nossos olhos de alegria! Obrigada Carybé!

Que os deuses africanos e de todos os lugares e crenças nos abençoem.

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