Ensino da visa na graduação: entre encantamentos e disputas

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No ano em que a maioria dos cursos de Saúde Coletiva celebra a sua primeira década, o 8º Simpósio Brasileiro de Vigilância Sanitária – Simbravisa – abriu espaço na sua programação científica para pensar as conquistas e disputas que os conhecimentos teóricos e práticos para o exercício da Vigilância Sanitária (visa) encontram nas agendas da graduação. Realizado na terça-feira, 26 de novembro, o painel “Vigilância Sanitária nas Instituições Formadoras” reuniu experiências de três instituições e serviu para aprofundar esse debate tão necessário.

A Visa entrou na vida da docente Maria Cristina Marques há cerca de 20 anos, quando foi convidada a coordenar e orientar um curso para profissionais pela Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, atuando também na orientação dos trabalhos finais desses alunos.

Docente da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), ela falou sobre a presença da Visa na grade curricular da graduação em Saúde Pública, aparecendo nas discussões e por meio de convidados nos primeiros períodos da disciplina Atividades Integradas, e no 6º semestre, com a cadeira “Política de Saúde e Vigilância Sanitária”. Apesar da presença, não é um processo simples.

“Convencer dessa importância é parte importante do debate teórico. Essa compreensão é um dos primeiros desafios, e isso passa desapercebido nos nossos congressos. Quando conseguimos pautar uma disciplina, nem sempre conseguimos um campo de prática, o que representa um desafio” explicou a docente, relacionando a presença da Visa à própria compreensão do que se tornou a Saúde Coletiva como campo de conhecimentos teóricos e práticos multi e transdisciplinar a partir do debate fundante do Movimento pela Reforma Sanitária Brasileira. “O trabalho da visa é proteção à saúde no campo do coletivo. logo, a Saúde Coletiva sem o debate da Vigilância Sanitária fica menor”.

Maria Cristina ressaltou também a centralidade da disciplina debater os conceitos de risco e território como instrumentos para a compreensão da realidade em saúde. “É espaço da disciplina constituir um pensamento crítico sobre categorias essenciais que fazem o corpus teórico e prático da visa, para assim juntar conhecimentos e então percorrer os caminhos de uma Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) e das legislações”.

Aposta na criatividade: Percurso semelhante possui a visa na graduação em Saúde Coletiva no Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IESC/UFRJ). A professora Márcia Aparecida Ribeiro historiou a formação do curso, advindo das ações do REUNI, em 2008, e que também completou 10 anos neste 2019.

No IESC/UFRJ, os conteúdos relacionados à visa fazem parte de uma disciplina obrigatória de 45 horas no 7º período, além de aparecerem também no rol do programa da cadeira Atividades Integradas em Saúde Coletiva, de natureza eletiva.

Nas duas disciplinas, segundo Márcia, o conteúdo central passa pelos debates sobre o conceito de risco e sua complexidade. “A ideia de desconstruir a visão senso comum acerca da Vigilância, de que só é uma ação punitiva e fiscalizatória, além de também não ser possível falar de todos os produtos e serviços cobertos pela visa uma só disciplina” explicou a docente.

Além da preocupação com uma visão mais ampliada e crítica das práticas em visa, a docente ressaltou também o aspecto lúdico. “O exercício final convida a uma aposta na criatividade, comandando que os alunos abordem um dos temas trabalhados em visa por meio de expressões artísticas, como vídeo, música, poesias e contos”.

A docente apontou também que há sim um interesse e procura de outras graduações à disciplina. Nessas formações, os conteúdos da vigilância sanitária aparecem de forma pulverizada, e essa iniciativa quase sempre parte dos alunos que têm muita curiosidade e desejam saber mais.

Outro ponto valorizado por Márcia e que também acontece em São Paulo é a parceria com os serviços para o exercício dos estágios supervisionados, o que enche os alunos de encantamento ao tomarem contato cotidiano com as práticas da visa, mas, ao mesmo tempo, decepcionam pela dificuldade de inserção profissional. “É difícil absorver esses graduados nos serviços, já que muitas das ações estão diretamente ligadas a formações disciplinares”.

Projeto institucional e de vida: Ana Souto completou o painel com as experiências vivenciadas na graduação do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA).

Entre os elementos que conformam e confirmam a pujança da temática no ISC, Ana destacou a centralidade com que o debate da visa ocupou e foi constituído como parte do projeto institucional da unidade, algo feito de maneira compartilhada e comprometida pela Anvisa. “Havia um projeto de desenvolvimento em pesquisa, ensino e educação permanente, algo que carece no atual momento. Quando isso começar a ruir, é muito ruim, sentimos como uma ameaça” alertou Ana Souto.

O “efeito Reuni” foi, para Ana Souto, além de um importante momento na formação de uma geração de graduados, também um período de formação docente, amparado pela liderança da Abrasco e que possibilitou a abertura da Saúde Coletiva para outras dimensões da produção do conhecimento.

Juntamente, ao menos no cenário baiano, emergiu conjuntamente todo um novo perfil universitário. “São alunas e alunos negros, pobres, homossexuais São alunas e alunas plenos em tudo o que devem ser nas suas essenciais, e, por isso mesmo, atentos e aptos para trazerem novas e outras questões à formação e à própria visa, aos quais precisamos também incluir.

Em sua participação como mediadora, Bianca Silva, docente no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (ISC/UNIRIO), ressaltou que a construção dos currículos como lugar de disputa, e que o debate da visa toca todas as formações. “Eu conheci a visa num projeto de extensão quando era aluna de graduação e vi logo como aqueles conhecimentos disseram muito sobre o que eu queria fazer. A visa é central para o mundo do trabalho das profissões mais disciplinares e também para quem for trabalhar nas ações e serviços de saúde de maneira transversal. Os alunos e alunas precisam conhecer a visa”.

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