Cartas para Guimarães Rosa no 8º Simbravisa

O 8º Simpósio Brasileiro de Vigilância Sanitária que acontecerá em Belo Horizonte, de 24 a 27 de novembro de 2019, dará visibilidade ao exercício de trabalhadores, pesquisadores e gestores desse campo da Saúde Coletiva, de tamanha importância para a proteção da saúde da sociedade e a prevenção dos riscos. Este Simbravisa homenageará ainda o escritor, médico e diplomata mineiro Guimarães Rosa.

Na literatura roseana, o tema da saúde e adoecimento e os temas sobre o ambiente e a ética dos sertanejos em relação ao território, estão inscritos na maioria de seus escritos. Passados 52 anos da morte desse escritor, sua literatura é alento para enfrentar os desafios dos tempos atuais. Vive-se na amplitude dos problemas do século XXI, seus paradoxos, desafios e incertezas. A extrema velocidade urbana, a desigualdade, a proliferação de doenças antigas e novas, o desequilíbrio ecológico, o desmantelamento da democracia, a imponência dos mercados, o receio do futuro, são questões que culminam em angústias e indagações.

A literatura de Guimarães é indutora de muitas provocações sejam essas alento, memórias, ternuras e sonhos, como na voz de Riobaldo: “Quando o senhor sonhar, sonhe com aquilo. Cheiro de campos com flores, forte, em abril: a ciganinha, roxa, e a nhiíca e a escova, amarelinhas… Isto -no Saririnhém. Cigarras dão bando. Debaixo de um tamarindo sombroso…”

Ou o texto sobre o riachinho simbolizando a dor de muitos: “Foi no meio duma noite, indo para a madrugada, todos estavam dormindo Mas cada um sentiu, de repente, no coração, o estalo do silenciozinho que ele fez pontuda falta da toada, do barulhinho. Acordaram, se falaram. Até as crianças. Até os cachorros latiram. Aí, todos se levantaram, caçaram o quintal, saíram com luz, para espiar o que não havia. Foram pela porta-da-cozinha. Manuelzão adiante, os cachorros sempre latindo. – “Ele perdeu o chio…” Triste duma certeza: cada vez mais fundo, mais longe nos silêncios, ele tinha ido s’embora, o riachinho de todos. Chegado na beirada, Manuelzão entrou, ainda molhou os pés, no fresco lameal. Manuelzão, segurando a tocha de cera de carnaúba, o peito batendo com um estranhado diferente, ele se debruçou e esclareceu. Ainda viu o derradeiro fiapo d’água escorrer, estilar, cair degrau de altura de palmo a derradeira gota, o bilbo. E o que a tocha na mão de Manuelzão mais alumiou: que todos tremiam mágoa nos olhos. Ainda esperavam ali, sem sensatez; por fim se avistou no céu a estrela-d’alva. O riacho soluço se estancara, sem resto, e talvez para sempre. Secara-se a lagrimal, sua boquinha serrana. Era como se um menino sozinho tivesse morrido. “(ROSA, 1994, p.549-550). São textos que evocam memórias e simplicidades. Textos que emocionam e instigam, consolam e libertam. Iluminam pelo conhecimento, os que buscam outras veredas.

Uma ação simbólica – As cartas

Minas Gerais tem sido marcada por graves acontecimentos que vitimaram pessoas e alteraram o ambiente: matando rios, exterminando biomas. Os mineiros estão indignados e os gerais continuam sofrendo com novas políticas de desenvolvimento nem sempre voltadas à preservação do ambiente e à saúde da população. Entre as grandes ações necessárias e fundamentais para dar conta dos problemas do século XXI encontram-se outras ações, pequenas e ao alcance de muitos, com potencial simbólico que podem instigar cultura e arte, compensar nossas faltas, aproximar seres humanos, abrigar outras visões, expandir a estética dos sertões, repensar a saúde.

Nossas necessidades de alento em tempos de angústia e solidão sinalizaram a proposta desse projeto Cartas para Guimarães Rosa. Pensou-se que além do ato de ler autores como Rosa, o ato de escrever e divulgar cartas em meio físico, no modo antigo, é simbólico. Faz uma pausa, abre um parêntesis, desloca do lugar do des-alento para um lugar ao abrigo da utopia.

O projeto receberá material até 30 de agosto e terá sua culminância no 8º Simbravisa onde será celebrado. Assim, propõe-se a escrita de cartas, no ensejo de que as mesmas, endereçadas à memória de Guimarães Rosa, possam ser endereçadas a todas as pessoas que buscam vida, ambiente e mundo saudável. Simbolizando nosso esforço e desejo para uma existência digna.

Objetivo

Fomentar a criação e circulação de cartas com estímulo à importância dos temas:
1- Literatura e arte em geral;
2- Saúde Pública no território (O fomento direcionado a estudantes das cidades nas quais o projeto for desenvolvido, pode associar-se a debates sobre a saúde e o sistema de saúde pública por meio de roda de leitura ou outro método.)

Público participante
Aberto a todos interessados pelo tema

Conteúdo das cartas
As cartas devem ter conteúdo coerente com os temas destacados e ocupar uma página apenas.

Critérios de exclusão
Ilegibilidade do manuscrito;
Incoerência com o tema;
Conteúdos desrespeitosos.

Destinatário
Museu Casa Guimarães Rosa – Cordisburgo
Endereço: Av. Padre João, 744, Cordisburgo – MG, 35780-000

Período de recebimento
Até 30 agosto

Esclarecimento de dúvidas
Enviar e-mail para: cartasparaguimaraesrosa@gmail.com

Forma de Exibição e divulgação
Compilação/Instalação/Roda de leitura ou outros formatos nos locais envolvidos nesse projeto e no 8º Simbravisa.

Equipe de Coordenação
Daniella Guimarães de Araújo – Coordenação geral
Fátima Coelho e Castro – Coordenação Morro da Garça
Ronaldo Alves – Coordenação Cordisburgo
Tânia Maria de Almeida Alves – Coordenação geral (Fiocruz Minas)
Bárbara Melgaço – Coordenação Andrequicé

Apoiadores
Eleonora Meira Vasconcellos INCQS/ Fiocruz
Renata Ribeiro USP
Rosa Haruco Tane USP

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