Saúde, meio ambiente e distribuição de alimentos

Alternativas ao modelo de desenvolvimento neoextrativista e as populações do campo, floresta e das águas. Foto Emerson Rocha

Defender a relação intrínseca entre o modelo de produção e distribuição de alimentos e as condições de saúde: esse foi o eixo principal da mesa redonda ‘Alternativas ao modelo de desenvolvimento neoextrativista e as populações do campo, floresta e das águas’, realizada na tarde do primeiro dia do 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão), e mediada pelo pesquisador Fernando Carneiro, da Fiocruz Ceará. “Esse modelo tem trazido fome para os territórios pesqueiros”, denunciou Eliete Paraguassu, quilombola da Ilha da Maré, na Bahia, e integrante da Articulação Nacional das Mulheres Pescadoras, lembrando, contraditoriamente, que são esses povos que “sustentam a cidade”.

Eliete participa ativamente de uma campanha de regularização dos territórios pesqueiros, mas ressaltou que, paralelamente, eles têm que lutar também pelo simples direito de se manter nesses territórios. “Não querem a gente ali. Somos um entrave ao desenvolvimento”, disse, alertando para a importância de se discutir o conceito de “racismo ambiental”. “É ele que leva toda essa desgraça para as nossas comunidades. Estamos sendo exterminados, mas ninguém liga. É um território preto”, denunciou.

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O “modelo”, a que Eliete se referiu e que consta do título da mesa-redonda, foi caracterizado nas falas de João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), e Paulo Petersen, da AS-PTA, associação da sociedade civil dedicada à questão da agricultura familiar e agroecologia. Segundo os debatedores, ele atende pelo nome de agronegócio.

“Estamos vivendo a agudização do conflito entre dois modelos de produção da vida e exploração da natureza”, anunciou Stédile. De um lado, está o que ele chamou de “modelo do capital”, controlado por poucas empresas transnacionais e hegemônico hoje na agricultura. De outro, o que Stédile batizou como o “modelo dos trabalhadores”. “São duas propostas completamente antagônicas, que não conseguem conviver no mesmo território”, alertou.

Segundo ele, o agronegócio, como o próprio nome diz, busca a produtividade máxima do trabalho e da exploração da natureza. Já o modelo dos trabalhadores defende que a agricultura deve ter como objetivo principal a produção de alimentos saudáveis para a população. Por isso, aposta na policultura, produzindo alimentos diversos, respeitando o ciclo agrícola – segundo ele, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) chegou a comprar 318 variedades diferentes da agricultura familiar. Já o modelo do capital investe na monocultura baseada em grandes extensões de terra. Ele exemplificou com os cinturões da soja, onde, nas suas palavras, “não nasce mais nenhuma forma de vida”. Além disso, para produzir cada vez mais e sem mão-de-obra, de acordo com Stédile, esse modelo depende cada vez mais do uso de agrotóxicos.

É para responder a esses desafios, segundo o debatedor, que movimentos e instituições estão apostando na agroecologia como uma nova matriz. Neste momento, anunciou, o MST, a Via Campesina e a Fundação Oswaldo Cruz, em parceria com várias universidades, estão construindo um Dicionário de Agroecologia, que visa, por exemplo, subsidiar os professores, desde o ensino fundamental até os cursos superiores de agronomia. “Fazer política é importante, mas precisamos também de cientistas”, disse.

Caracterizando a agroecologia exatamente como “uma perspectiva científica e política democratizante”, Paulo Petersen ressaltou que esse conceito precisa ser compreendido como englobando o conjunto da cadeia. Segundo ele, não é possível explicar as monoculturas, por exemplo, sem se entender o processo de concentração do varejo, que faz com que se multipliquem os grandes supermercados e sejam fechados os mercados locais, que comumente escoam a diversidade.

Destacando que o Estado subsidia o agronegócio, ele desmentiu a ideia de que esse modelo traz eficiência econômica. E alertou para a investida que o grande empresariado desse setor tem feito no sentido de adequar legislações aos seus interesses. Sua necessidade de exploração do trabalho, disse, fez com que a bancada ruralista do Congresso tente mudar o conceito de trabalho escravo. Sua relação de exploração da natureza fez com que esses mesmos parlamentares conseguissem mudar o Código Florestal, exemplificou. E alguns dados do censo agrário, divulgado naquele dia, segundo ele, confirmam o crescimento desse grupo, evidenciando um aumento importante do uso de agrotóxicos e uma concentração tão grande de terra que Petersen caracterizou como uma verdadeira “contrarreforma agrária”.

Matéria originalmente publicada no Portal da Escola Politécnica Joaquim Venâncio

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