Medicina indígena e biomedicina

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A 12ª edição do Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva abriu espaço para a discussão dos saberes e práticas de saúde dos povos indígenas e sua relação com os serviços de saúde. O debate aconteceu na manhã de sábado (28/7) e reuniu Esther Langdon (UFSC), Joziléia Schild (UFSC) e Raquel Scopel (Fiocruz/MS) no auditório do Pavilhão Rocha Maia, localizado no Campus da Fiocruz em Manguinhos.

A mesa foi aberta pela professora da Universidade Federal de Santa Catarina, Esther Langdon, que apresentou sugestões para a melhoria das relações entre o saber tradicional e a biomedicina. Segundo Langdon, a atenção diferenciada deveria reconhecer a eficácia da medicina tradicional e os diretos desses povos. “A formação e capacitação de indígenas como agentes de saúde é uma estratégia que visa oferecer a apropriação de recursos sem substituir a medicina tradicional, entretanto, não há consenso sobre como os tratamentos devem ser realizados, há muita falta de diálogo e julgamentos morais acerca das condições de vida nas terras indígenas, assim como de suas práticas”.

A professora ressaltou que para a população indígena a saúde tem um conceito bem mais amplo que a saúde da biomedicina. “A difusão e aprendizagem do conhecimento é feito através da experiência prática. Devemos estabelecer o diálogo, reconhecer os limites da biomedicina, articular com as práticas e saberes indígenas e sair do centro das discussões”, concluiu.

Em seguida foi a vez da pesquisadora da Fiocruz Mato Grosso do Sul, Raquel Scopel, apresentar suas observações sobre o tema. De acordo com Raquel, a saúde indígena deve ser vista em um contexto de pluralidade médica, já que a visão do que é saúde contempla não apenas o corpo, mas também casas e entornos. “Do ponto de vista indígena, há possibilidade de articulação entre a medicina tradicional e a biomedicina. É comum, por exemplo, vermos uma gestante do povo Munduruku recorrendo a enfermeiras, médicos, pajés, parteiras e outros atores”.

Segundo Scopel, os homens e mulheres do povo Munduruku não ficam restritos às práticas consideradas por eles como tradicionais, porém, o sucateamento do SUS, assim como a baixa cobertura e qualidade dos serviços afastam a população. “Entre 38 gestantes, apenas nove tiveram acesso ao pré-natal e, entre 2008 e 2010, dos 143 partos registrados, 77 foram domiciliares, muitas vezes com a coparticipação de parteiras e profissionais de saúde”.

Fechando o debate, Joziléia Schild, primeira estudante indígena do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina, fez um relato sobre as condições de vida na terra indígena da Serrinha, local de origem do povo Kaingang. “Os espaços indígenas estão doentes e os ambientes onde há disputa por terras estão ainda mais adoecidos”.

Joziléia lamentou a perda de identidade dos povos indígenas, citando como exemplo a alta procura por partos cesáreas entre mulheres indígenas e o fato de que os agentes de saúde indígenas pouco utilizarem a medicina tradicional. “Muitas práticas não existem mais. O ambiente que nasci não existe mais. Não há uma preocupação com o tradicional e os agentes de saúde atuam como brancos. Tivemos avanços, mas a associação entre o tradicional e a biomedicina não existe. No papel, a política de saúde indígena é linda, mas na prática é bem diferente”, concluiu.

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