Prospecção estratégica em prol do direito à saúde

Mesa Redonda Prospecção Estratégica e Estudos de Futuro em Saúde. Foto Rafael Venuto/Abrasco

Prospecção tecnológica, estudos de futuro e inovação estiveram em pauta no segundo dia do Abrascão 2018. A economista Regina Maria Silvério, diretora do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), organização civil ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação, a médica sanitarista Roseli Monteiro, pesquisadora do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz), e o pesquisador José Noronha, coordenador do projeto Brasil Saúde Amanhã, também da Fiocruz, estiveram reunidos na mesa Prospecção Estratégica e Estudos prospectivos em saúde: Expectativas e perspectivas, organizada pelo CEE-Fiocruz, e que foi coordenada por Carlos Silva, pesquisador do Centro.

“A prospecção nada mais é do que pensar o futuro, e seu grande ganho é a troca de informação e a construção de aprendizado coletivo”, resumiu Regina Silvério, iniciando sua exposição. Ela apresentou o processo de trabalho do CGEE, com abordagem metodológica em módulos, que se inicia com uma definição de demanda e escopo, buscando deixar clara desde o início a questão que a instituição atendida quer responder e o que está buscando, de modo a garantir um bom resultado do estudo e não se traçarem estratégias equivocadas. Em seguida, estuda-se o contexto e o estado da arte do tema em foco, buscando o conhecimento já produzido a respeito, com auxílio de uma ferramenta desenvolvida pelo próprio CGEE, que varre a produção do Brasil e do exterior, em qualquer idioma.

“Fazemos, então, o panorama e o diagnóstico do assunto e traçamos alternativas, rotas, priorizando o plano de ação, utilizando as ferramentas disponíveis de foresight. Toda a implementação é monitorada, uma vez que o estado da arte pode se modificar ao longo do processo”, explicou Regina, acrescentando que os estudos prospectivos não trabalham só na dimensão de ciência, tecnologia e inovação, mas com outras cinco dimensões – gestão, financeira, de talentos (relativa aos especialistas que podem ajudar no estudo), investimentos e institucional. “A dimensão da gestão aparece claramente como problema em todos os estudos que fizemos”, observou.

O pesquisador José Noronha apresentou em sua exposição a forma de atuação do projeto Saúde Amanhã e como este interage com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. “Adotamos a Agenda 2030 para termos um padrão e por coincidir com o programa de trabalho aprovado no congresso interno da Fiocruz”, explicou. Noronha destacou que o projeto Saúde Amanhã atua no plano da macropolítica, “olhando o Brasil como um espaço de reflexão”, e, diferentemente da experiência apresentada por Regina, do CGEE, examina as tendências em curso, mas não propõe políticas, encaminhamentos ou desdobramentos.

A partir de uma brincadeira com os termos profeciaprevisão e prospecção, o pesquisador buscou discutir os limites da previsibilidade e o grau de certeza que a baliza. “A prospecção, no caso de políticas públicas implica visão. É preciso saber o que se quer, para chegar em algum lugar”, destacou.

Citando o pensador italiano Antonio Gramsci, Noronha explicou que este “inspira a reflexão do Saúde Amanhã”, a partir da ideia de que prever significa ver o presente e o passado em movimento. “Fazemos três cenários – o provável, o desejável e o possível. Nem todos os caminhos mais prováveis são os desejáveis, em relação aos objetivos que queremos alcançar. Há o horizonte preferível – que não se desmonte o sus, que se aumente o gasto em saúde – embora a previsão seja contrária”, analisou.

O rastreamento de horizontes pelo projeto Saúde Amanhã se dá a partir do contato com especialistas, aos quais são propostos debates. O trabalho realizado já gerou diversas publicações.

Roseli Monteiro abordou a experiência desenvolvida no Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, que há três anos criou um grupo de estudos prospectivos, utilizando a tecnologia Foresight. “Nosso primeiro desafio é fazer com que o processo de gestão estratégica e de governança, tanto de governo, quanto de setor privado, inclua em sua reflexão para tomada de decisão o futuro”, destacou, explicando que o Foresight é uma abordagem metodológica que surgiu na Inglaterra nos anos 80, e que se referencia nos sistemas de inovação e na tecnologia, como motores do desenvolvimento econômico.

“A tecnologia provoca mudanças extremamente importantes e não controláveis. É possível, no entanto, obter alguns sinais do que mudará se lançarmos sobre ela um olhar de futuro”, observou. De acordo com Roseli, o trabalho com a tecnologia foresight difere daqueles voltados a previsões e a retrospectivas. “Projetar o futuro refere-se a análise de tendências, não é foresight, uma vez que não se relaciona a uma questão, a uma dúvida crítica”, explicou, dando exemplos: “Não se faz foresight relacionado à demografia, mas pode-se fazer para saber o que acontecerá com os jovens de 20 a 35 anos, no interior, com a mecanização da agricultura, ou para responder qual será o espaço da agricultura familiar no cenário do agronegócio – não adianta querer a agricultura familiar, é necessário verificar as possibilidades de ela se realizar e o que e preciso ser feito para que se realize”, analisou.

A pesquisadora abordou o estudo desenvolvido no CEE-Fiocruz sobre laboratório em um chip (LOC, na sigla em inglês) – tecnologia emergente de miniaturizarização dos processos de laboratórios para oferecer resultados no local em que o usuário estiver recebendo atenção, onde quer que seja – e as questões que o orientaram. “O laboratório em um chip tem grande potencial de se desenvolver? Tem possibilidade de impactar o diagnóstico em saúde? Em quanto tempo estará disponível? É possível que o Brasil e outros países em desenvolvimento incorporem essa tecnologia?”, foram algumas perguntas que o estudo buscou responder, de acordo com Roseli. Veja mais aqui.

Entre os estudos realizados pela equipe de prospecção do CEE-Fiocruz, a pesquisadora destacou também o que teve como tema a tuberculose, apontando que os resultados mostraram que, se não houver incorporação tecnológica, não se chegará ao controle da doença. “Com os recursos existentes essa é uma meta inexequível”, afirmou.

Em relação ao LOC, o estudo, que ouviu 256 especialistas de vários países sobre as perspectivas dessa tecnologia, mostrou a expectativa é de que ela esteja disponível em até 20 anos. “Não há país em desenvolvimento pesquisando isso. Não há patente registrada com essa tecnologia. Seria uma grande janela de oportunidade para instituições como a Fiocruz”, observou, lembrando que os resultados do estudo foram apresentados à presidência da instituição e compartilhado com dirigentes e pesquisadores em workshop realizado em maio de 2018.

Mesa Prospecção Estratégica e Estudos prospectivos em saúde: Expectativas e perspectivas. Da esquerda para direita, Regina Silvério, José Noronha, Carlos Silva e Roseli Monteiro.

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