Para além da técnica: visão crítica para orientar debate sobre internet

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Você já deve ter reparado que seu histórico de navegação influencia as buscas que faz na internet. Ou que recebe propagandas nas redes sociais relacionadas aos temas que têm pesquisado. Ou talvez tenha a impressão de que empresas oferecem produtos e serviços munidas de informações que você nunca forneceu a elas. Essa é só a ponta de um iceberg de mineração e utilização comercial de dados pessoais cada vez mais central em nosso mundo digitalizado. O tema foi debatido na mesa redonda Saúde Coletiva e Informação e Tecnologia de Informação em Saúde (ITIS): o contexto da internet das coisas, realizada no 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, no dia 28 de julho. Os pesquisadores Marcelo Fornazin, da Universidade Federal Fluminense (UFF), e Ricardo Medeiros Pimenta, do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibibct), discutiram as perspectivas humanas do desenvolvimento tecnológico, apontando a necessidade de reflexões multidisciplinares sobre esse processo, que tem grande importância para a saúde.

A chamada internet das coisas, hoje no horizonte de desenvolvimento da tecnologia digital, prevê a conexão online de diversos dispositivos de nosso cotidiano. Ela vem a reboque da avanço da tecnologia mobile: os smartphones já superam os computadores pessoais como forma de acesso à rede e uma vários outros dispositivos, como tablets e até smartwatches (relógios inteligentes), já são realidade. “Esses dispositivos promovem mudanças cognitivas importantes, funcionam como extensões de nossas memórias e competências, o que por um lado é potência, mas por outro também é amputação”, avaliou Pimenta. “Vivemos capturados por esses dispositivos, utilizando diversos serviços que parecem gratuitos, nos tornando indivíduos-perfis. Mas nada é gratuito, estamos trocando o acesso a nossos dados pessoais por esses serviços.”

Pimenta, aliás, prefere não utilizar o termo internet das coisas, mas sim “internet de tudo”. “Carros que andam sozinhos, geladeiras que montam listas de compras, roupas que monitores nossos estados corporais, tudo isso parece ótimo e passa a impressão de que são circuitos fechados para atender nossas necessidades”, ponderou. “Mas nunca são circuitos fechados. São processos que interligam pessoas, dados e coisas. A informação é o produto mais valioso da atualidade e a comercialização desses bancos possibilita formas de monitoramento e vigilância muito mais abrangentes do que cidades monitoradas por câmeras.”

Na mesma linha, Fornazim citou citou alguns exemplos simples e, aparentemente, inofensivos. Aplicativos de testes sobre cultura pop no Facebook coletam dados dos usuários e de seus contatos para bases que serão comercializadas. Redes de mercados oferecem descontos pelo uso de aplicativos de fidelidade disponibilizam os dados dos clientes para seus parceiros comerciais, numa relação que costuma ser classificada por publicações de negócios como ganha-ganha.

“Mas e a gente nisso? É um processo muito sutil. Quem não quer economizar? Mas há um custo. Os dados podem ser vendidos, por exemplo, para empresas de consultoria política, com um detalhamento muito superior ao de qualquer instituto de pesquisa, ou para seguradoras e planos de saúde, para estabelecer nossos perfis”, afirmou. “Se um grupo de trabalhadores de saúde utiliza ferramentas como o Whatsapp, por exemplo, esses dados também podem ser minerados.”

O papel das humanidades digitais

O problema, como destacou Pimenta, não é a tecnologia em si. Dispositivos de realidade aumentada, por exemplo, podem ser muito valiosos para realização de cirurgias, enquanto dispositivos vestíveis podem melhorar o monitoramento da saúde e a qualidade de vida. Porém, eles geram uma quantidade incrível de dados e é preciso introduzir uma perspectiva crítica sobre o que fazemos com isso. “É preciso complexificar a discussão sobre tecnologia, introduzindo o olhar das humanidades digitais, multidisciplinar, para além da perspectiva técnica”, defendeu.

Para Fornazim, o debate sobre a introdução da tecnologia em nosso cotidiano ainda é muito técnico. Mesmo na área da saúde o foco está na apresentação das perspectivas encantadoras, como a capacidade de acompanhamento remoto de pacientes e indução de comportamentos saudáveis. “Os questionamentos sobre os aspectos humanos, públicos e democráticos, sobre o SUS, sobre privacidade e consentimento, costumam ser retratados como amarras para a inovação”, avaliou. “Mas por que a tecnologia tem essa precedência? A sociedade está à margem desse debate.”

Os dois pesquisadores também destacaram a dificuldade de lidar com a questão da perspectiva individual. “Aplicativos que coletam e vendem nossos dados pessoais hoje não fazem nada ilegal, estão protegidos por termos de consentimento que somos obrigados a assinar, oferecendo ‘espontaneamente’ as informações, eles transferem a responsabilidade para o próprio usuário”, afirmou Pimenta. Fornazim complementou: “A saúde coletiva tem papel importante na disputa pela narrativa sobre o avanço tecnológico, pois da perspectiva técnica as empresas sempre se colocam na posição confortável de que a tecnologia está resolvendo problemas. Isso requer uma estrutura sociotécnica democrática e só coletivamente é possível fazer esse enfrentamento.”

O pesquisador da UFF citou como exemplo positivo a experiência da Rede interagencial de informações para saúde (Ripsa), que articula entidades representativas dos segmentos técnicos e científicos envolvidos na produção, análise e disseminação de dados sobre saúde nacionais, cuja construção foi feita de forma conjunta pelos usuários. “Construir a tecnologia é construir nosso mundo, por isso precisamos ser sujeitos desse processo”, defendeu. “A informação é um direito do cidadão e é preciso uma discussão pública sobre seu uso, pois este é um espaço estratégico em que diversos interesses estão em disputa.”

Infraestrutura e controle

Os pesquisadores lembraram, ainda, que além de novos dispositivos a questão tecnológica também passa pela infraestrutura que serve de base para seu desenvolvimento. “O mundo conectado tem muitas rugosidades sobre as quais não paramos para pensar. Por exemplo, os cabos submarinos, que são a base da internet, estão muito mais concentrados no Hemisfério Norte e aqueles que circundam a América do Sul são de propriedade da Telefônica, uma empresa de majoritariamente espanhola”, avaliou Pimenta. “Já o Marco Civil da Internet, que foi uma conquista social, previa que as bases de dados brasileiras ficassem no Brasil, o que não foi aprovado. É a valorização da ideia da descentralização, da nuvem. Mas não existe um CloudSUS, por exemplo. A internet está cada vez mais centralizada por grandes empresas como a Amazon, Google e Microsoft. É preciso aprofundar esse debate”, defendeu.

Essas questões também produzem efeito sobre a pesquisa. O próprio Pimenta argumentou que, se até os anos 2000 os hisotiradores utilizavam os arquivos públicos como principal fontes de informação sobre a sociedade, atualmente a maior parte da informação socialmente construída está na internet. “Cada vez mais produzimos registros pulverizados na rede, que estão sob o controle de grandes empresas”, avaliou. “Como um historiador produzirá pesquisa daqui a 80 anos? Também precisamos desenvolver competências para produzir reflexões sobre o mundo da vida digitalizada.”

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