“Eu posso ser quem você é sem deixar de ser quem eu sou”

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Há quem negue as raízes históricas da conformação do povo brasileiro, mas há aqueles que se empenham não só em aprofundar seu estudo, como produzir ciência para tornar essa terra uma país mais justo para todos os que o habitam. Reunidos na manhã ensolarada do domingo que encerrou 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – Abrascão 2018, um pesquisador, uma técnica do IBGE e um representante indígena fizeram florescer um importante debate na mesa intitulada: Demografia e Saúde dos Povos Indígenas no Brasil: Cenários e Perspectivas para o Censo Demográfico de 2020. Coordenado por Gerson Luiz Marinho, da UFRJ, os expositores foram o pesquisador da ENSP, Ricardo Ventura Santos, Marta de Oliveira Antunes, do IBGE, e Marcos Terena da Cátedra Indígena Intercultural – Comitê Intertribal.

+ Leia a material na publicação original, na página da ENSP/Fiocruz

Primeiro a falar, Ricardo Ventura Santos traçou um histórico sobre como ao longo dos anos o censo realizado pelo IBGE foi se transformando para melhor compreender a realidade dos nossos povos originários. “Somente em 1991 foi incluída a opção de se identificar como indígena no censo. Até então, as opções eram branco, preto, pardo e amarelo. O censo de 2010 trouxe mais detalhamento, como pertencimento étnico, língua falada no domicílio, entre outros”. Em determinado momento de sua exposião, Ventura Santos mostrou um lindo desenho de uma “Cobra-Grande” – ser mitológico presente em diversas comsmologias indígenas – em que é possível ver desenhado um mapa do estado do Rio de Janeiro. Esse mapa mostra a presença indígena em 89 dos 92 municípios do estado. O que a gente vê nessa obra de arte de Denilson Baniwa é uma forma de resignificar, de uma perspectiva indígena, os dados do censo”.

A fala de Marta Antunes, do IBGE, focou aspectos técnicos do trabalho de recenseamento e falou ainda de dificuldades encontradas no tocante a inclusão dos indígenas no censo. “Precisamos avançar, em 2020, com relação a presença de indígenas em áreas urbanas. É preciso também realizar um trabalho prévio, explicar o que é um censo. Em muitos lugares, a frase utilizada pelo recenseador para romper a resistência e desconfiaça com relação à sua presença é “IBGE amigo de Funai” e muitas vezes não gerava o resultado pretendido, já que há muitas regiões do país desassistidas por ações governamentais”.

Encerrando a mesa, Marcos Terena procurou fazer uma fala voltada “bem para o real”, como ele mesmo a definiu. Nada mais real do que narrar a própria experiência. Marcos contou como só foi descobrir que era índio com mais de vinte anos, quando em Brasilia encontrou dificuldades burocráticas para tirar o brevê de piloto comercial. “Eu tinha saído muito criança da minha aldeia, estudado, entrado na Academia da Força Aérea, mas em Brasília tive meu brevê retido durante três anos”. É a partir dessa vivência que ele acredita que um trabalho de base deve ser feito com relação ao censo. “É preciso mostrar que é bom ser índio. Eu, durante 14 anos, dizia que não, porque isso poderia prejudicar a minha vida”. Para Marcos, hoje, é importante a compreensão de que ser índio não é algo que traga qualquer tipo de restricão à vida intelectual e material da pessoa. “Nós gostamos de dizer que eu posso ser quem você é sem deixar de ser quem sou. Precisamos ter índios que se formem médicos, engenheiros, estatísticos, antropólogos. São eles que vão cobrar da sociedade brasileira a política indigenista que não foi feita no passado”.

Apontando em direção ao futuro, Ricardo Ventura Santos fez suas considerações finais lembrando que é preciso avançar com relação as pesquisas demográficas. “O tempo dos censos são sempre longos demais com relação aos nossos problemas. Há ainda experiências de outros países que podem nos servir de exemplo. Nos EUA, a pessoa pode se marcar em mais de uma opção no tocante à sua identidade. No Paraguai, são feitos censos indígenas específicos”. Como parte desses avanços, Marta Antunes citou a inclusão de quilombolas no censo de 2020 e também da possibilidade de inclusão de recenseadores indígenas. Marcos Terena, por sua vez, lembrou da importância da luta dos povos indígenas para o reconhecimento de sua identidade e para a construção de uma sociedade mais solidaria e justa no Brasil. “As pessoas falam que somos indolentes, mas nós somos persistentes. Caminhamos em direção ao futuro sempre nos rastros de nossos antepassados.”

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