Discurso Rosana Onocko, presidente da Abrasco na abertura do 13º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva

Boa noite, ABRASCO!!!!!

É com imensa alegria e com muito orgulho que inauguramos este décimo terceiro Abrascão. Tenho a imensa responsabilidade de fazer este discurso de abertura como Presidenta da Comissão Científica, e como Presidenta da Abrasco.

Em março de 2021, ao abrir os trabalhos do 4º Congresso de Políticas eu disse que a saúde coletiva estava de pé, e que para nos ajoelhar teriam de cortar as nossas pernas. Pois bem, seguimos de pé! Não nos ajoelhamos. Demos dura batalha. Perdemos muitos bravos e bons guerreiros. Mas aqui estamos: de pé para a próxima batalha.

Quero aqui trazer o meu agradecimento, em nome de todos os abrasquianos, pelo esforço, pelo afinco, pela garra com que os sanitaristas brasileiros participaram da construção de planos de combate à epidemia, de fóruns regionais e locais para tomada de decisões, arquitetaram pesquisas em tempo recorde, aconselharam governos em todos os níveis e estiveram disponíveis para combater o

obscurantismo do governo federal ao longo da pior fase da pandemia da Covid. A partir de espaços públicos e políticos, desde suas próprias redes sociais, expondo-se inclusive a ataques e injustiças, os sanitaristas combatemos e continuamos ainda a combater a malfadada condução do controle da epidemia do atual ministério da saúde e de seus predecessores.

Os abrasquianos também colaboramos ao longo dos meses para informar à CPI da Pandemia, que acabou evidenciando o plano macabro e monstruoso de genocídio deste governo. Fazendo compreensíveis informações científicas relevantes, organizando e coletando dados que o nível federal procurava sonegar da sociedade, articulando a defesa dos povos originários … Enfim, de inúmeras maneiras. Por isso, reitero – em nome da Abrasco – nossa gratidão a todos os sanitaristas deste país.

A Abrasco nunca se furtou à luta e sempre defendeu e defenderá a democracia, a justiça social e o direito à saúde. Junto de outras entidades da sociedade civil, tem dado mostras de coragem e articulação nos tempos infames que vivemos. Mas, dentre todas essas entidades – nossas grandes parceiras, a Abrasco tem uma característica preciosa que deve ser preservada e que é sua especificidade na representação de um campo – o da Saúde Coletiva – que aglutina o melhor do pensamento científico da nossa área e um grande engajamento de milhares de profissionais e trabalhadores da saúde, todos unidos na defesa da saúde e dos direitos do povo brasileiro.

Desde o início da nossa gestão, em agosto de 2021, viemos realizando um intenso trabalho de organização e planejamento das nossas ações. Houve importante renovação em muitos de nossos GTs e a retomada de funcionamento de comissões e Comitês. Estimulamos um trabalho interno de interseccionalidade com maior articulação entre os GTs, e entre os GTs e Comissões para produzirmos respostas temáticas à altura dos desafios que o Brasil nos apresenta.

A organização deste 13º Abrascão foi inovadora nesse sentido. A partir do tema central: Saúde é democracia: diversidade, equidade e justiça social, organizamos 13 eixos temáticos. Propositalmente, esses eixos não corresponderam a GTs nem a Comissões ou Comitês preexistentes e nos obrigaram a trabalhar de forma integrada, intensamente deliberativa. Precisamos fazer um esforço de paciência e criatividade para negociar cada uma das atividades coletivas. Em cada mesa, em cada debate buscamos atingir a equidade de gênero e a maior diversidade racial. Buscamos também atender à reivindicação de renovação e de transição geracional que refletisse a força e a renovação de nosso campo. Não foi sem tensões. Mas creio poder afirmar que demos um passo à frente.

Meu agradecimento à Comissão Científica também pela organização final das mais de 985 comunicações coordenadas, 4519 assíncronas e de mais de outras 200 atividades entre mesas e debates: o trabalho metódico, dedicado e responsável da Comissão Científica foi formidável! A todos eles meu muito obrigado.

Nosso Congresso também não seria possível sem o apoio da OPAS, das Secretarias Estadual e Municipal da Bahia, da FioCruz, e de parlamentares que enxergaram seu valor e relevância e fizeram emendas especialmente destinadas a nos apoiar. A todos eles meu maior muito obrigada!

Nestes últimos anos, a pandemia exacerbou inequidades e desigualdades inaceitáveis. Nada há de novo embaixo do sol, só que a exacerbação da pobreza, do desemprego, a falta de inclusão digital que prejudicou muito mais as crianças pobres – por exemplo – tornaram-se insuportáveis. Denunciamos isso aos quatro ventos, porque a denúncia é condição prévia à exigência de políticas reparadoras. O Estado brasileiro terá de reparar órfãos, viúvas e planejar medidas propositivas e eficazes para minimizar o gap educacional. Se essas medidas não forem implementadas o fosso social só se agravará e nosso futuro estará hipotecado.

Vivemos anos de esvaziamento do financiamento de ciência e tecnologia, aparelhamento das agências de fomento, enfim, ações que caracterizam todas juntas um cenário de guerra ao pensamento. Teremos de recriar um sistema de C&T que volte a colocar o Brasil no páreo mundial e que – ao mesmo tempo – contribua para o combate às desigualdades sociais e regionais. Avançar nas alianças globais, mas também nas agendas Sul-Sul, buscando soluções conjuntas e cooperativas para os problemas de nossos povos. Assim também poderá ser enfrentada a dependência tecnológica (que tão evidente ficou na questão das vacinas).

Precisaremos manter viva a nossa luta para atingir esses objetivos porque não é fácil a estratégia de pressão sobre empresas e governos. Entramos no campo da política com P maiúsculo: a que deve discutir os problemas humanos na Polis. Renovamos a esperança após o resultado eleitoral de 30 de outubro. Precisamos fugir das falsas controvérsias fáceis. Tipo: emprego ou sustentabilidade. Precisamos criar uma economia nova na qual os empregos sejam mais bem remunerados e aconteçam em setores de economia limpa. Temos essa dívida com as gerações futuras, tomara saibamos honrá-la. Abrasco está engajada nessa luta!

Teremos também de combater o subfinanciamento de nosso Sistema Único de Saúde. De novo, trata-se de uma questão da grande política, não de politicagem. Nunca como na pandemia o SUS pode ser conhecido por aqueles que não o utilizavam, nem tão valorizado pelos seus usuários habituais. Mas temos – nós sanitaristas – obrigação de apontar onde e para que esses recursos a mais serão investidos. Nossa associação desenvolveu este ano uma Campanha de marketing social “Fortalecer o SUS” na qual apontamos vários caminhos viáveis para fortalecimento do sistema de saúde, que conseguiu mais de 80.000 assinaturas. A quem ainda não viu os convido a visitá-la.

A pandemia deixou também um rastro de empobrecimento e exacerbou as já graves desigualdades brasileiras. Precisaremos do trabalho articulado de todas as nossas áreas e grupos temáticos para construir um novo Brasil.

Nunca como nestes anos pandémicos, os sanitaristas pudemos nos orgulhar tanto de quem somos e do que escolhemos. Defender a vida e a saúde, não somente a nossa, pessoal, ou a de nossas famílias e seres queridos, mas a de todos. Nós, sanitaristas sabemos e lutamos pela defesa da vida coletiva, porque sabemos que o planeta é um só e não haverá saída local nem individual, senão – e somente – coletiva.

O Brasil se enche de novo de esperança, na iminência de um novo governo. Quero agradecer ao povo da Bahia por ter – literalmente – salvado à pátria! Teremos pela frente anos de um árduo trabalho para erigir um país novo, não se trata de uma reconstrução, porque queremos um país melhor e diferente, sem as principais mazelas que o acompanharam nos últimos 500 anos. Que nosso Abrascão possa contribuir para formular, divulgar e articular soluções e iniciativas que o Brasil tanto precisa. Novos tempos, novas esperanças, novos ares. Provavelmente, problemas novos.

Como reza o poema do Leminsky:

“Novas telhas,
à primeira chuva,
A nova goteira”

Obrigada e parabéns sanitaristas do Brasil!
Bons trabalhos para nós!

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