Abrascão aborda tecnologias da informação na capacitação de profissionais de saúde

Este slideshow necessita de JavaScript.

Na sexta-feira (27/7), o 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – Abrascão 2018 – debateu os novos desafios e possibilidades no âmbito da formação em saúde na mesa-redonda “Saúde Coletiva e Informação e Tecnologia de Informação em Saúde (Itis) na capacitação do profissional de saúde”, coordenada pela pesquisadora do Laboratório de Telessaúde do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Angélica Baptista. Participaram da discussão o diretor de Tecnologia da Informação da Associação Paulista de Medicina (APM), Antonio Carlos Endrigo, o professor da disciplina de Telemedicina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Chao Lung Wen, e o pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) José Mauro da Conceição Pinto.

Em sua exposição, Antonio Carlos Endrigo apresentou o projeto Idoso Bem Cuidado. Parceria com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Ministério da Saúde (MS) e USP e com apoio de empresas de tecnologia e segurança da informação, o projeto propõe um novo modelo de atenção aos idosos e traz, como uma de suas vertentes, a criação de um sistema de informações clínicas dos pacientes que serão disponibilizadas ao MS para monitoramento das condições de saúde dessa população.

Para Endrigo, trata-se de uma iniciativa que reposiciona o médico como gestor da saúde, incentivando a proatividade dos profissionais e possibilitando, por meio desse repositório de dados dos pacientes, a melhoria no acesso destes à saúde e no tratamento dispensado a eles pelas equipes. Na proposta, é responsabilidade do MS regulamentar o modelo e a forma de transação das informações, criando regras para o envio de dados, desenvolvendo o ambiente de recepção de dados e monitorando e disponibilizando os resultados. O papel da APM é colaborar com apoio junto aos médicos, disponibilizando os meios para o desenvolvimento da plataforma tecnológica, desenvolvendo e garantindo o uso dos requisitos de segurança da informação e criando mecanismos que garantam a continuidade da ferramenta Plataforma de Dados de Saúde.

O diretor de Tecnologia da Informação da APM destacou, ainda, a importância de os profissionais de saúde, sobretudo médicos, romperem barreiras contra o uso de tecnologias, fazendo cada vez mais uso de experiências em telemedicina e saúde digital. “Esta é a medicina 4.0 e ela exige uma mudança de comportamento no que se refere à forma de se relacionar entre profissionais de saúde e pacientes”, afirmou.

Chao Lung Wen descreveu, em sua fala, as metodologias de funcionamento e de avaliação da disciplina de Telemedicina ministrada por ele na USP. Para isso, o professor tratou, inicialmente, de como a educação como um todo precisa ser revista para se adaptar à nova realidade do que chamou de tecnologias exponenciais, entre elas o mobile, o armazenamento em nuvem, o Big Data, a impressão 3D, os sistemas cognitivos e a inteligência artificial. “Nosso maior problema é a constante dissociação entre a avalanche tecnológica que presenciamos e a educação, o processo de formação”, ressaltou Wen.

E foi pensando em como a interatividade pode fortalecer a educação médica que o professor desenvolveu o conceito de Educação Conectada Metacognitiva, que, segundo ele, é adaptativa, contextualizada e significativa. Wen defende que esse modelo foi criado a partir das competências necessárias aos profissionais do século XXI: saber observar e associar ideias, formular boas perguntas, sintetizar e reconhecer aspectos significativos, pesquisar e ter maturidade crítica, ter opiniões interessantes, trabalhar em equipe, identificar problemas e elaborar soluções, possuir habilidade de se comunicar e ter formação cidadã.

A disciplina de Telemedicina da USP é ministrada utilizando-se um sistema desenvolvido com base na plataforma Moodle. A metodologia adotada é a que ele chamou de Aprendizagem Baseada em Projeto de Soluções de Problemas (ABPSP), na qual os alunos praticam a atividade de brainstorming de ideias sobre o tema e precisam pesquisar novas informações sobre o assunto para enriquecer a aula ministrada por Wen. Eles utilizam realidade mista e até aulas de microscopia são feitas por meio da plataforma. O formato de disciplina implementado por ele tem sido bem avaliado por alunos dos cursos de mestrado e doutorado na área de educação da universidade. “Precisamos fazer reflexões necessárias, como, por exemplo: o que é formar bons profissionais e bons cidadãos; quais são as expectativas das pessoas que fazem o curso; e quais as expectativas sociais sobre esse profissional. Só assim será possível criar novos modelos de curso superior”, defendeu o professor.

Em sua apresentação, José Mauro da Conceição Pinto tomou como exemplos de formação em saúde os cursos para quadros de nível médio do Sistema Único de Saúde (SUS) oferecidos pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), utilizando a Atenção Básica (AB) como objeto para pensar a questão da informação em saúde. Nesse sentido, o pesquisador elencou os profissionais que produzem e lidam com as informações em saúde na AB – médicos, enfermeiros, técnicos e agentes comunitários de saúde – e fez um levantamento dos problemas apontados com relação à produção e gestão dos dados, registros e informações.

Alguns dos principais foram: o grande volume produzido e acumulado (analógico e digital); no caso do acervo analógico, foram identificados ilegibilidade, dificuldade de localização e acesso e perda de privacidade; no caso do acervo digital, falta continuidade dos softwares e sistemas, há fragmentação dos dados e perda de informação; grande quantidade de documentos duplicados; aumento significativo da produção documental; falta de padronização na organização de documentos; inexistência de áreas próprias para guarda de documentos; falta de procedimentos que garantam a segurança da informação; entre vários outros entraves.

Para Pinto, a consideração que se deve fazer sobre a análise do problema é que grande parte dos dados, registros e informações gerados na AB são arquivísticos e devem ser tratados como tal, independentemente de seu suporte ou formato. E, nesse sentido, os profissionais que atuam na produção e gestão arquivística de documentos e preservação digital precisam ser formados de acordo com uma determinada concepção de informação e alinhados ao desafio atual, que é produzir, manter e preservar documentos digitais autênticos e compreensíveis.

“As principais questões são: que profissional da informação queremos e que formação deve ser construída para este profissional. Ele precisa entender o valor da informação, que cuidados ele precisa ter para preservar essa informação, qual é a possibilidade que ele tem de cuidar da privacidade dessa informação. Isso possibilita a esse profissional que atua nas unidades de saúde ser um elemento de mudança de cultura frente à visão que se tem com relação aos documentos e às informações produzidas na Atenção Básica”, concluiu o pesquisador.

 

Comments

comments

Deixe uma resposta