A democracia como instrumento essencial para o desenvolvimento das sociedades


O Grande Debate Desenvolvimento socioeconômico, democracia e saúde marcou o início das atividades desta quinta-feira (30), no 11º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – Abrascão 2015. Os pesquisadores Carlos Médicis Morel, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (CDTS/Fiocruz), Márcio Pochmann, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Pedro Célio Borges, docente da Universidade Federal de Goiás (UFG) abordaram as relações entre democracia, saúde e economia, ressaltando o desenvolvimento social resultante dessa interação. A discussão foi coordenada pela jornalista e pesquisadora Maria José Braga.

Para indagar as relações sobre esses campos, Carlos Morel comentou acerca das diversas pesquisas e evidências que apresentam uma relação direta entre desenvolvimento socioeconômico e saúde. É o caso da Rússia, exemplificou o pesquisador, ao citar que com o fim da União Soviética passou por uma drástica mudança em sua estruturação política e social. Ao realizar uma abertura econômica total influenciada pelo pensamento liberal, o país rompeu abruptamente as redes de proteção social, o que acarretou em graves problemas de saúde na população, como o aumento dos índices de mortalidade e doenças como depressão e o alcoolismo.

Carlos Morel destacou ainda os exemplos da Grécia e da Islândia, onde a democracia –  ou a ausência dela – implicou diretamente no destino dos dois países. A longa crise grega que se arrasta há anos deixa evidente os problemas de saúde, incluindo o aparecimento de malária, aumento da incidência de doenças mentais e explosão de casos de HIV/Aids. O pesquisador enfatizou que a saúde é um determinante-chave para o desenvolvimento e a redução da pobreza e que os investimentos socioeconômicos de um país refletem em uma população mais saudável. “Mais democracia é a solução. A saúde leva ao desenvolvimento econômico”. Confira a apresentação de Carlos Morel.

Em sua participação, Márcio Pochmann criticou o processo de alienação ao qual a sociedade está submetida, fruto de uma perspectiva neoliberal de intervenção na realidade e do abandono do pensamento crítico social. Segundo o economista, a sociedade contemporânea é movida pelo “curto prazo”, focando apenas no presente e desprezando o passado. Para ele, mais do que nunca, a leitura histórica é essencial para a compreensão do presente e do futuro de uma sociedade.

Pochmann criticou o modelo da atual produção de conhecimento nas universidades brasileiras, que, para ele, corresponde a “uma produção inconsequente que permite ver a parte, mas não o todo”. Segundo o pesquisador, isso é reflexo do “curto-prazismo”, aliado à fragmentação do conhecimento. “Isso gera impotência social e incapacidade de conhecer possibilidades fantásticas no campo das ideias”.

Impasses da sociedade contemporânea: Uma indagação presente na sessão foram os impasses políticos gerados na atual configuração social. Pochmann fez uma breve análise das mudanças significativas nas últimas décadas, como o aumento da expectativa de vida; a mudança da sociedade agrária para a urbana; a influência das novas tecnologias, e a conquista de direitos sociais pelas mulheres e idosos, num conjunto de fatores que implicou em novas relações sociais.

A reflexão principal trazida pelo debatedor sobre o atual cenário é falta de uma agenda de convergência para essa nova sociedade que está sendo formada. Assim, há “um esvaziamento da política, dos partidos, sindicatos e outras representações”, afirmou. Para Pochmann, é preciso revolucionar as formas de representação de interesses e apostar na “construção, com humildade, de uma nova sociedade sem preconceitos e com coragem para colocar novos temas no debate social” .

O professor e pesquisador Pedro Célio enfatizou o esvaziamento político da sociedade atual e a necessidade de diálogo. Ao avaliar a conjuntura política brasileira, ressaltou que os temores, as ansiedades e as indefinições da população  impregnaram o debate político. “O governo perdeu o rumo, as lideranças não dialogam ente si e há uma crise na hegemonia. É preciso reconhecer essa crise e recuperar a capacidade política de diálogo”, destacou Pedro Célio.

Segundo Pedro Célio, figuram na sociedade contemporânea tanto problemas sociais antigos e corriqueiros, muitos dos quais apresentam sob uma “roupagem” nova, como novos desafios a serem superados. Discorrendo sobre o governo brasileiro atual, ele ressaltou que a situação econômica necessita de ajustes estruturais. “Há um momento de impotência, imperícia do governo. Um momento propício para interesses particulares, onde todos se sentem desamparados”, reforça o pesquisador.

O Congresso Nacional tem realizado “ações políticas miúdas”, segundo o professor da UFG, o que tem feito com que as vozes progressistas percam espaço e poder de articulação. “As manifestações de 2013 até hoje parecem indecifráveis para o governo. O Brasil continua rico, tem muitas possibilidades, mas há dissociação entre governo e povo, entre Estado e sociedade”, afirmou. Pedro Célio concluiu o debate dizendo que a população não tem reagido à onda conservadora do governo brasileiro atual e que a saída para mudar o contexto atual, dentro da democracia, é o diálogo. Por fim, lançou um questionamento para os ouvintes: “como recuperar a condição política a partir do ponto de vista democrático?”. Eis uma reflexão necessária para avançarmos na discussão sobre o desenvolvimento social

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