2º Simpósio Trabalho e Educação na Saúde no Abrascão 2018

Celia Pierantioni, Gastão Wagner, Isabela Cardoso, Gulnar Azevedo e Monica Padilha. Foto Matheus Plastino / Abrasco

O estado da arte e as perspectivas do campo trabalho e educação na saúde, além das relações, evidências e desafios que marcam as questões relacionadas à gestão do trabalho e à formação dos/as profissionais de saúde foram exploradas na programação do 2º Simpósio Internacional Trabalho e Educação na Saúde, realizado nos dias 24 e 25 de julho, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O evento integra as atividades pré-congresso do Abrascão 2018 – 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, que acontece entre 26 e 29 de julho, no Rio de Janeiro (RJ).

A abertura do evento contou com a participação de Isabela Cardoso, coordenadora do GT Trabalho e Educação na Saúde da Abrasco – Associação Brasileira de Saúde Coletiva; Gastão Wagner, presidente da Abrasco; Monica Padilla, coordenadora da Unidade Técnica de Capacidades Humanas para a Saúde da Organização Panamericana de Saúde (OPAS); Celia Pierantioni (IMS/UERJ) e Gulnar Azevedo, diretora do Instituto de Medicina Social da UERJ.

Entre as questões exploradas no simpósio estão as avaliações, resultados e custos do Programa Mais Médicos (PMM), tema que mobilizou a plateia no segundo dia do evento. Para Everton Nunes (UNB), que apresentou resultados de artigo sobre estimativa de custos do PMM, é necessário discutir critérios para escolha dos locais nos quais a intervenção federal no provimento de médicos é recomendada. No debate, a médica equatoriana Monica Padilla (OPAS) ressaltou a importância de considerar o contexto do país na implementação do programa, uma análise que deve ir além de um estudo sobre custos. Coordenador da mesa-redonda sobre evidências do trabalho na atenção primária à saúde, Mario Dal Poz (IMS/UERJ) destacou os desafios de pensar modelos preditivos que possam tornar mais clara a relação entre a intervenção do PMM e seus resultados.

Na última mesa-redonda do evento, a formação em saúde norteou o diálogo entre as apresentações. A discussão sobre educação interprofissional (EIP) promovida pela OPAS, que recentemente aprovou a Estratégia de Recursos Humanos em Saúde para acesso universal e cobertura universal de saúde, foi tema da exposição de José Rodrigues (OMS). Prioritária para o organismo internacional, que tem apoiado a adoção por seus estados membros, a estratégia tem ganhado visibilidade na região das Américas.

Segundo o consultor internacional, como abordagem pedagógica voltada para o desenvolvimento de competências e habilidades para o trabalho em equipe e colaborativo, a EIP se mostra relevante para as práticas de Educação Permanente por sua potencialidade para superar o isolamento da formação dos/as profissionais. Reduzir o déficit de profissionais de saúde, qualifica-los/as – “profissionais se formam separados para atuar juntos” – e reduzir custos na área de recursos humanos em saúde são outros resultados da abordagem interprofissional apontados na apresentação. Rodrigues pontuou que é preciso superar o “tribalismo das profissões”, contrário à demanda da população por um trabalho conjunto.

Na mesma mesa, o pesquisador argentino Mario Rovere ressaltou a Educação Permanente como estratégia de formação de profissionais em defesa das políticas sociais: “Não vejo nenhum país da América Latina com uma institucionalidade da educação permanente como o Brasil”. O pesquisador mostrou preocupação com a relação entre o Programa Mais Médicos e a criação de 129 novos cursos de graduação em universidades privadas, que aponta contradições entre os interesses do setor privado e os objetivos das políticas sociais. Rovere enfatizou a importância da vigilância epistemológica quanto ao uso do termo “governança” – “pensar em governança sem governo é utopia” e chamou a atenção para o processo político brasileiro e as mudanças dos regimes políticos na América do Sul, que têm colocado o equilíbrio fiscal acima dos direitos sociais.

A experiência de implementação de uma escola de medicina no sertão nordestino, a Escola Multicampi de Ciências Médicas, foi relatada por Ana Luiza de Oliveira (UFRN), última a se apresentar no evento. Desenvolvida há quatro anos no interior do Rio Grande do Norte, com sede em Caicó e atuação nesse município, Santa Cruz e Currais Novos, a iniciativa é marcada pela exposição dos/s estudantes a experiências que mobilizam competências e aproximação da comunidade. A escolha de municípios para atuação da escola médica tem como base a escassez de profissionais, dificuldade de fixação de médicos/as e necessidade de reversão de desigualdades na região, cujo IDH é considerado muito baixo.

A experiência incluiu estratégias de inclusão de estudantes da região e permanência de profissionais por meio da criação de curso de mestrado profissional e residências multiprofissionais. “Isso me dá muito orgulho porque acho que a universidade não tem que ter uma elite branca, masculina, que dita suas regras de acordo com o seu lugar social”, declarou Ana Luiza. “Estamos no cotovelo do Brasil, mais perto da Europa e mais distante também”, afirmou, destacando a problemática da seca na região – “absoluta falta de dignidade humana” – e a necessidade da defesa epistemológica dos saberes do Sul, na perspectiva de Boaventura de Sousa Santos.

Coordenadora da segunda edição do simpósio, Isabela Cardoso elencou temas relevantes discutidos durante os dois dias do encontro, entre eles as relações de trabalho, a expansão dos cursos de saúde, mercado de trabalho em saúde, relações interfederativas e investimento na regionalização, avaliada como “estratégia importantíssima, num país federativo como o Brasil, para avançar nas ações e na integração em nosso modelo de atenção à saúde”. E complementa: “Discutimos também a importância da formação em saúde e da relação entre a formação, a educação permanente, a educação interprofissional e os modelos de formação, onde se encontram o trabalho, a saúde e a educação, além das estratégias que podemos acionar para avançar”.

Isabela Cardoso, que na oportunidade passou a coordenação do GT para Janete Castro (UFRN), enfatizou o papel do simpósio, que já integra a programação de eventos da Abrasco, na construção de uma agenda para o campo temático: “Um conjunto de novas questões emerge do debate, das exposições, da contribuição de todos/as os/as convidados/as e participantes do simpósio. Este produto gerado a partir do simpósio passa a fazer parte da nossa agenda de pesquisa, agenda de discussão e principalmente da nossa agenda de cooperação com as políticas públicas no Brasil”.

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