Fique por dentro das primeiras edições do Congresso de Epidemiologia

Em mais de 30 anos de história, o Congresso de Epidemiologia da Abrasco encarou diversos desafios, consolidando-se como um ponto aglutinador de especialistas e pesquisadores da área e fomentando a produção de estudos e análises epidemiológicas. Para relembrar a trajetória desse evento tão importante para o debate da Saúde no Brasil, a Comunicação da Abrasco conversou com ex-presidentes da primeira década do Congresso de Epidemiologia para refletir sobre o passado, o presente e o futuro desse marco histórico e científico. 

À luz do processo de redemocratização do país e logo após a criação do Sistema Único de Saúde pela Constituição de 1988, a primeira edição do Congresso de Epidemiologia aconteceu em 1990, em Campinas. Caracterizado pela necessidade de fortalecer com dados e com a formação de recursos humanos o sistema de saúde que se organizava sob novas bases, os primeiros anos da década de 1990 foram determinantes para a saúde coletiva e para o debate no país. 

Em 1992, as questões para a epidemiologia brasileira eram outras. A segunda edição do evento reuniu 2 mil participantes em Belo Horizonte sob o tema ”Qualidade de vida: compromisso histórico da epidemiologia”. Durante os cinco dias foram oferecidas 5 oficinas, 22 cursos, 6 mesas-redondas, 17 palestras e 3 conferências. O ensino da epidemiologia também ocupava espaço importante no congresso, o que era consistente com a necessidade da formação de recursos humanos na área. A epidemiologia das doenças crônicas e do envelhecimento também surgiram como temas emergentes. 

Os congressos que seguiram reforçaram o processo de fortalecimento de atuação e formação em epidemiologia. Em 1995, o debate tomou proporções internacionais com o com o 3º Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em Salvador, que  comportou também II Congresso Ibero-Americano de Epidemiologia, o I Congresso LatinoAmericano de Epidemiologia e a I Mostra de Tecnologia em Epidemiologia. Com o tema “A epidemiologia na busca da eqüidade em saúde”, o congresso marcou, na época,  um recorde de cerca de 3.500 participantes de 22 países.

A última edição do Congresso no século XX,  dessa vez no Rio, colocou a epidemiologia sob novos olhares. Com o tema “Epidemiologia em perspectiva: novos tempos, pessoas e lugares” o IV Congresso reuniu cerca de 2.200 participantes e 1.550 trabalhos, em1998.

A quinta edição do Congresso reuniu pesquisadores em Curitiba para pautar “A epidemiologia na promoção da saúde”. Ao todo foram 10 oficinas, 26 cursos, 4 conferências, 6 mesas-redondas, 46 palestras, 44 painéis, 7 colóquios e 1.693 pôsteres. 

Avaliando a trajetória:

Para Maria Fernanda Lima e Costa, presidente do II Congresso de Epidemiologia, a epidemiologia ainda caminhava, na época, para se consolidar como um campo de conhecimento. ”Ao longo do tempo essa dificuldade foi sendo superada com a formação de jovens epidemiologistas e o reconhecimento da importância da epidemiologia para o Sistema Único de Saúde”, afirma. 

Essa importância, entretanto, não fica restrita apenas ao SUS. Para a pesquisadora, uma das características mais importantes da epidemiologia brasileira é a sua forte inserção no campo da saúde coletiva, tanto na academia quanto nos serviços de saúde. “Seria difícil imaginar a consolidação da área da saúde coletiva no Brasil, sem a contribuição da epidemiologia.”, garante. 

Para o presidente do V Congresso de Epidemiologia que aconteceu em 2002, Moisés Goldbaum, o cenário da pandemia apenas deixou mais explícita a importância do debate epidemiológico. “Fica evidente a competência explicativa gerada pelo uso da metodologia no reconhecimento da dinâmica do processo saúde-doença, seja em momentos pandêmicos, seja em momentos pré ou pós pandêmicos.”, afirma. 

“O desenvolvimento da Epidemiologia enfrentou e enfrenta as inconstâncias vivenciadas pela ausência de políticas explícitas e perenes voltadas para a ciência, tecnologia e inovação geral e, muito particularmente, na saúde.”

Moisés Goldbaum – Presidente do 5º Congresso Brasileiro de Epidemiologia – 2002

A área, que vê crescer o interesse de pesquisadores e alunos sobre o tema, resultado colateral do processo pandêmico, nem sempre recebeu tanta atenção, ou investimentos. “O desenvolvimento da Epidemiologia enfrentou e enfrenta as inconstâncias vivenciadas pela ausência de políticas explícitas e perenes voltadas para a ciência, tecnologia e inovação geral e, muito particularmente, na saúde.” , afirma o pesquisador.

Apesar disso, a epidemiologia segue, desde 1990, a busca, integrada com os demais campos da saúde, pela equidade em saúde e das condições para o exercício das boas qualidades de vida. Nesse cenário, os Congressos se tornam essenciais para o fortalecimento da área.  “A sua capacidade de reunir a estrutura da academia com o setor de serviços e permitir a troca de experiências mostrou-se enriquecedor da aplicação da metodologia epidemiológica para a produção de conhecimentos.”, afirma Goldbaum. 

Olhando o futuro:

Num momento tão importante para o debate da Epidemiologia, como continuar produzindo dados científicos que dêem conta da realidade da saúde num país afetado pela crise política, pelas mortes e pelo discurso anticientífico? 

 O EPI2021 vem com a missão de fortalecer ainda mais o debate da área diante da pandemia. Para Maria Fernanda, o momento é propício para “pensar nas consequências da epidemia para a população, construindo sistemas de vigilância para identificar as sequelas pós covid, monitorar a efetividade dos serviços de saúde para a reabilitação daqueles com essas sequelas, realizar estudos sobre a efetividade das vacinas existentes e das que estão por vir. Trata-se de um tema novo, sobre o qual ainda estamos aprendendo.”, conclui. 

O 11º Congresso Brasileiro de Epidemiologia (Epidemiologia, Democracia & Saúde: Conhecimentos e Ações para equidade – EPI2021) ocorrerá em formato virtual nos dias 18 e 19 de novembro (cursos pré-congresso) e 22 a 26 de novembro de 2021 (congresso propriamente dito). 

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