Chamamento de resistência pelo SUS e pelas universidades públicas marcam a abertura do Epi2017

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“A Reforma Sanitária está viva, ela está em todos os espaços, ela está aqui. Este é o momento em que ela precisa inspirar e mobilizar: precisamos articular nossa prática teórica com a prática política” pediu Antonio Boing, presidente do 10º Congresso Brasileiro de Epidemiologia da Abrasco. A fala de Boing foi a primeira de uma série de depoimentos fortes, emocionados, esperançosos, que fizeram da solenidade de abertura do Epi2017, um chamamento para todos os congressistas: – “Nossa estratégia de sobrevivência é a gente ser coerente em cada ação nossa, e produzir um movimento de oposição e resistência que ao mesmo tempo vá criando um mundo novo como a gente quer. Vamos resistir e vamos criar, o Brasil é melhor do que esse povo que está lá em Brasília”, disse Gastão Wagner, presidente da Abrasco, abrindo oficialmente o congresso diante de quase três mil pessoas.

Além de Antonio Boing e Gastão Wagner, a mesa de abertura contou com a presença de Joaquim Molina (representante da Organização Pan-Americana de Saúde – OPAS); Jarbas Barbosa (presidente da Anvisa); Sergio Freitas (Pró-Reitor da UFSC); Nísia Trindade (presidente da Fiocruz); Ana Cristina Vidor (Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis); Henrique Barros (presidente da Associação Internacional de Epidemiologia – IEA) e ainda Maria Amélia Veras (coordenadora da Comissão de Epidemiologia da Abrasco e coordenadora da Comissão Científica do Epi2017).

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Foram homenageados quatro expoentes da Epidemiologia brasileira durante a cerimônia de abertura: Maria Zélia Rouquayrol, professora emérita da Universidade Federal do Ceará, responsável pela elaboração de livros didáticos sobre epidemiologia, suprindo as lacunas existentes nessa área, até então. Indubitavelmente, Epidemiologia & Saúde, produto que sempre teve Maria Zélia Rouquayrol, como a principal organizadora, é considerado o livro-texto de Saúde Pública mais adotado no Brasil, para o ensino de tópicos relevantes da Saúde Coletiva. A professora Zélia foi representada por Marcelo Gurgel e Monica Façanha. José da Silva Guedes, outro homenageado, idealizou a primeira caderneta de vacinação no estado de São Paulo, em 1968. Professor pleno de Medicina Social da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, José Guedes foi o sexto presidente da Abrasco, entre 1989 e 1991.

Vencer a noite

Quando Luiz Augusto Facchini recebeu a homenagem, pediu quebra de protocolo para agradecer: – “É muita generosidade de vocês, eu não mereço… A gente tem noites pessoais que são terríveis, talvez nunca passem, mas nós temos convicção que a noite que este país enfrenta, será vencida, e só o trabalho coletivo permite isso!” disse Facchini, já em meio a uma salva de palmas. O quarto homenageado foi o epidemiologista Moyses Szklo, brasileiro, que leciona na universidade Johns Hopkins, editor do American Journal of Epidemiology, e que possui vasta experiência em estudos de coorte multicêntricos. Szklo agradeceu “Esta enorme honra dos meus pares brasileiros, e parabenizo o belo discurso do professor Boing”.

A última homenagem foi feita pela coordenadora do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UFSC, professora Josimari Lacerda, ao professor Luiz Carlos Cancellier, Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, que cometeu suicídio na manhã da segunda-feira, 2 de outubro: – “Cancellier não foi escutado… lhe foi negado o direito ao contraditório. Foi preso, na ala de segurança máxima do presídio estadual, julgado e condenado publicamente em rede nacional pelo desvio de 80 milhões de reais, num processo ainda em investigação sob sigilo na Polícia Federal. Na verdade, o que consta no despacho da juíza é: “suspeito de obstrução de justiça”. A Universidade seguirá e tem o maior interesse na apuração dos fatos em toda a sua extensão, vivemos tempos difíceis mas manteremos nossa unidade e autonomia”, disse Josimar que a seguir pediu um minuto de silêncio.

Solidariedade para resistir

“Sem competência para acrescentar ao que já foi dito gostaria de me referir a um evento, que constitui, na minha opinião, em um fator de proteção importante contra o conformismo, de um tipo que de fator de proteção que se fortalece nos momentos de crise, e que nos faz acreditar na humanidade, e ter esperança: solidariedade”, enfatizou Maria Amélia Veras em seu discurso. “A comunidade epistêmica a que se referiu Jairnilson pode ser também chamada de Comunidade de solidariedade – termo usado por Parker e Agletton – para se referir a laços de solidariedade, de sentimento compartilhado e de vontade de trabalhar em conjunto para o bem comum. Esta é a nossa comunidade! É desta forma que resistimos, em consonância com a definição de uma disciplina científica militante, que trabalhamos arduamente, e que esperamos inspirar uma nova geração de epidemiologistas que honrem o legado recebido daqueles que abriram os caminhos, que continuem trabalhando para manter o nível de excelência que a epidemiologia brasileira alcançou”, finalizou Veras.

O presidente da IEA, o português Henrique Barros, evidenciou o crescimento e a inventividade da Epidemiologia brasileira no cenário mundial, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade alertou para esta cultura do ódio que também é problema de saúde pública: – “Esta intolerância que vivemos não interessa àquele que luta pelo SUS, estamos perdendo o vigor da democracia e estes espaços públicos de debates se colocam como lugares de enfrentamento, esse também é o papel da Abrasco”, disse Nísia.

‘É preciso preservar o Direito, mesmo que o bandido seja o presidente da república’

Bastante emocionado e diversas vezes silenciado pelas lágrimas, o Pró-Reitor da UFSC, Sérgio Freitas prestou homenagem às universidades públicas brasileiras e ao Reitor Cancellier através do seu discurso: -“Ele foi preso, proibido de entrar na Universidade, proibido de discutir sobre o processo com a gestão da UFSC, teve seu nome, sua imagem pública e pessoal jogadas na lama, teve solapados os dois pilares que estruturaram sua visão de mundo: os princípios fundamentais do Direito, e o exercício do conhecimento acadêmico. Numa reunião de Conselho Universitário, ocorrida há poucos meses, li uma nota em repúdio às reformas da previdência e trabalhista. Ele colocou em discussão a inadequação de se qualificar o governo atual como ilegítimo, contrariando a opinião da maioria. Esta reunião foi realizada num campus do interior, e na viagem de volta ele conversava comigo empolgado dizendo ‘Adorei a discussão’ e depois de me explicar que o princípio do Direito precisava ser preservado, arrematou com a seguinte frase ‘É preciso preservar o Direito, mesmo que o bandido seja o presidente da república’. Este foi o Reitor que esperou terminar a campanha do setembro amarelo para cometer seu último e mais importante ato político: o suicídio. Ele precisava gritar, e ser ouvido, sobre o que acontece com as universidades públicas e com o país”, alertou Sérgio.

O presidente da Anvisa saudou mais este congresso de Epidemiologia da Abrasco, relembrando sua participação na primeira edição, em 1990, em Campinas: – “Este congresso já nasceu defendendo o SUS, então, digamos, recém-nascido, fruto da esperança e da luta democrática, pelo direito do voto, da opinião, da greve: queríamos também uma saúde democrática, que através de um Sistema Único de Saúde acabássemos com aquele apartheid social terrível que nós tínhamos em nosso país, que colocava nossos trabalhadores rurais numa condição absolutamente de sub-acesso aos direitos mínimos de saúde, que colocava todos os milhões de trabalhadores informais numa condição de negação dos direitos mínimos de saúde. E chegamos hoje, 27 anos depois daquela primeira edição, num congresso que precisa lutar e defender este SUS. Este espaço é uma plataforma de fortalecimento e uma oportunidade de revitalizar nosso Sistema Único de Saúde”, disse Jarbas.

“São nos momentos de crise que se espera mais da saúde pública e da epidemiologia. Amigas e amigos: precisamos inovar, temos que apostar em uma epidemiologia mais analítica, que possa construir cenários alternativos, que oriente a tomada de decisões dos gestores, que antecipe os problemas e que ofereça alternativas e soluções”, disse Joaquim Molina em sua fala na abertura do Epi2017: – “Temos um caminho de ilusões e desafios e neste caminho vocês podem contar com a parceria e o apoio da Organização Pan-Americana de Saúde”, afirmou Molina.

‘O Brasil é melhor do que esse povo que está lá em Brasília’

A cerimônia foi encerrada pelas palavras de Gastão Wagner: – “A Abrasco já se pronunciou aqui, através da fala de Antonio Boing e Maria Amélia Veras, eles falaram por todos nós. Quero apenas ressaltar a importância da dedicação, capacidade e envolvimento do grupo que organizou este congresso: o maior de epidemiologia da história da associação e que está nos ensinando a fazer do luto pela violência cometida contra a UFSC, particularmente contra o seu Reitor Cancellier – um congresso de luta, generoso, que zela pela pluralidade e democracia. Por isso quero reforçar nosso reconhecimento a todo este coletivo. Nós fizemos este congresso em tempos difíceis, que podemos transformar em esperança, em alento.

Gastão falou ainda sobre possíveis estratégias para sobrevivência em tempos sombrios: – “Esta estratégia é fazer o que nós estamos fazendo aqui, criando momentos de esperança. Este é meu apelo: multiplicar estes espaços de reconhecimento das diferenças, de debate, com um projeto para caminhar juntos. Nossa estratégia de sobrevivência é a gente ser coerente em cada ação nossa, e produzir um movimento de oposição e resistência que ao mesmo tempo vá criando um mundo novo como a gente quer. A UFSC resiste, a UERJ resiste, a Fiocruz resiste, a Abrasco resiste, o Brasil é melhor do que esse povo que está lá em Brasília, vamos resistir e vamos criar!”, conclamou Gastão.

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