Cesar Victora ganha prêmio Gairdner de Saúde Global

Cesar Victora na cerimônia de abertura do IX Congresso Brasileiro de Epidemiologia, o Epivix, de 2014 – Fotos: Porã/Abrasco

“Por suas destacadas contribuições para a saúde materno-infantil nos países de baixa e média renda, com especial incidência na mortalidade infantil e no impacto na nutrição a longo prazo na vida de milhares de crianças.” Com essas palavras, Cesar Victora, epidemiologista e professor emérito do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (PPGE/UFPEL), foi anunciado como vencedor do John Dirks Canada Gairdner Global Health Award, principal prêmio da Fundação Gairdner. O anúncio foi feito nesta manhã, 28 de março, numa cerimônia realizada na sede da entidade, em Toronto, Canadá. Victora fará a conferência de encerramento do X Congresso Brasileiro de Epidemiologia, que será realizado de 07 a 11 de outubro, em Florianópolis, na qual falará de sua trajetória na epidemiologia brasileira e mundial.

O Gairdner Awards é a mais importante premiação científica daquele país e uma das mais respeitadas mundialmente na área de ciências da saúde, distinguindo anualmente sete cientistas por suas contribuições à pesquisa em medicina e em saúde global. A condecoração foi criada em 1957, tendo premiado mais de 360 pesquisadores provenientes de 30 países. O farmacologista japonês Akira Endo e o fisiologista norte-americano David Julius são alguns dos outros seis condecorados da edição de 2017. Clique e confira a lista completa.

A comunicação da Fundação Gairdner destaca o papel pioneiro da coorte de Pelotas, estudo iniciado por Victora e equipe em 1982 e que acompanha até hoje cerca de 6 mil indivíduos. A partir das observações e dados colhidos e sistematizados, foram consolidados diversos estudos epidemiológicos sobre o decisivo período dos mil dias no início do ciclo vital, destacando o papel central do aleitamento materno nos primeiros anos de vida sobre a saúde da infância à idade adulta, o que subsidiou políticas públicas promovidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em todos os países-membros.

“Sempre é muito bom ver o nosso trabalho reconhecido dentro e fora do Brasil. Creio que esta premiação reflete todo o desenvolvimento da Saúde Coletiva, e em especial da epidemiologia em nosso país”, disse o abrasquiano em entrevista por e-mail.

Além do reconhecimento internacional e de honorários a serem revertidos em pesquisas, os vencedores de cada edição do Gairdner Awards realizam uma série de simpósios e visitas a universidades e escolas de ensino médio nas principais cidades canadenses. “É uma forma muito interessante de divulgar a ciência e promover o interesse de jovens em carreiras científicas”. A programação culminará na cerimônia oficial da premiação, a ser realizada em 26 de outubro, em Toronto.

Antes de viajar, Victora fará a cerimônia de encerramento do X Congresso Brasileiro de Epidemiologia, na tarde de 11 de outubro.

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“Fico muito feliz em participar de mais este congresso da Abrasco, pois tenho a honra de haver participado de todas as edições, desde a primeira, que ocorreu em Campinas, em 1990. Estou pensando em fazer uma conferência com o título – nada modesto – “De Pelotas para o mundo”, em que descrevo como pesquisas realizadas em um lugar bastante remoto, mesmo dentro do Brasil, podem contribuir para políticas globais”. Leia a entrevista completa:

Abrasco: Como se sente em ganhar mais esta premiação?
Cesar Victora: Sempre é muito bom ver o nosso trabalho reconhecido dentro e fora do Brasil. Creio que esta premiação reflete todo o desenvolvimento da Saúde Coletiva, e em especial da epidemiologia em nosso país. Foi um crescimento impressionante desde os anos 1970 e 1980, quando nossa disciplina começou a surgir em nosso meio. A Abrasco teve um papel fundamental ao agregar sanitaristas e epidemiologistas, contribuindo para a visibilidade de nosso trabalho em todo o mundo. Nossas agências financiadoras, por muitos anos, fortaleceram a pesquisa em Saúde Coletiva. E finalmente, a premiação também reflete o trabalho de equipe que realizamos aqui na UFPEL, é um reconhecimento para todo um grupo, mais do que para um indivíduo.

Abrasco: Como e quando será a cerimônia de premiação? Irá ao Canadá fazer alguma palestra especial antes ou juntamente à cerimônia?
Cesar Victora: O anúncio dos vencedores foi hoje, em 28 de março, mas a cerimônia oficial será em 26 de outubro, em Toronto. Os premiados viajam durante o mês de outubro por várias cidades canadenses para proferir palestras para diversos públicos, não apenas de acadêmicos, mas também para comunidades e estudantes de ensino médio. É uma forma muito interessante de divulgar a ciência e o trabalho dos premiados e promover o interesse de jovens nas carreiras científicas. Os premiados de 2017 são bastante variados, incluem, por exemplo, o farmacologista japonês que desenvolveu o primeiro tipo de estatina e o imunologista italiano cujas pesquisas permitiram a criação de vacinas contra hemófilos, pneumococos e meningococos. A série de palestras engloba, portanto, perspectivas de diferentes disciplinas científicas.

Abrasco: Ao olhar sua trajetória científica de quase 40 anos dedicados à saúde materno- infantil e à epidemiologia, o que destacaria como lição para as próximas gerações?
Cesar Victora: Eu gostaria de ser lembrado por haver realizado pesquisas que efetivamente influenciaram políticas globais e nacionais e que, portanto, contribuíram para melhorar as condições de saúde de crianças e de mulheres, particularmente aquelas em maior vulnerabilidade social. O fato de que a grande maioria dos países do mundo recomendam o aleitamento exclusivo por seis meses, e de que também adotam as curvas de crescimento baseadas em crianças amamentadas são para mim – que estive envolvido nestes estudos – a melhor recompensa. Para as próximas gerações de cientistas, recomendo que trabalhem muito para conseguirem realizar pesquisas rigorosas, mas que não percam de vista a função social da ciência.

Abrasco: Ao longo desta trajetória, você sempre evidenciou a importância de uma Saúde Pública inclusiva e de sistemas universais integrais, como o SUS. Nesse momento de sensíveis e visíveis perdas de direitos sociais em nosso país, como entende o debate travado hoje pela sociedade brasileira sobre o acesso à saúde?
Cesar Victora: Eu mencionei acima o papel positivo das agências financiadoras nacionais na criação de uma grande comunidade científica dentro da saúde coletiva. Infelizmente, as mudanças recentes nas políticas federais nas áreas de saúde e de ciência e tecnologia estão na contramão deste processo, e todo um trabalho criado ao longo de décadas se encontra seriamente ameaçado.

Abrasco: O senhor é um dos convidados do X Congresso Brasileiro de Epidemiologia. Qual tema abordará?
Cesar Victora: É verdade, eu fui convidado para proferir a palestra de encerramento. Fico muito feliz em participar de mais este congresso da Abrasco, pois tenho a honra de haver participado de todas as edições, desde a primeira, que ocorreu em Campinas, em 1990. Estou pensando em fazer uma conferência com o título – nada modesto – “De Pelotas para o mundo”, em que descrevo como pesquisas realizadas em um lugar bastante remoto, mesmo dentro do Brasil, podem contribuir para políticas globais.

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