Tenda Paulo Freire: espaço de cuidado e de resgate no 7ºCBCSHS


Marca registrada do movimento da Educação Popular em Saúde e presente em diversos encontros da Abrasco e de demais associações, a Tenda Paulo Freire foi um dos centros de gravidade desse 7º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (7º CBCSHS). Durante os quatro dias do evento, profissionais das práticas integrativas, agentes da cultura e da saúde popular e tradicional, pesquisadores, estudantes e militantes dos movimentos sociais reuniram-se na sala 01 do Bloco Didático 2 do campus da UFMT para promover discussões, reflexões e alianças num importante momento de diálogo entre os saberes popular e científico.

Teve um pouco de tudo na extensa programação. Principalmente, acolhimento. A qualquer hora que se passasse, havia alguém sendo atendido no Espaço do Cuidado, seja recebendo uma massagem ou uma onda energética de reiki, um chá fitoterápico, uma palavra amiga, um abraço. Mas, bem diferente das áreas pagas e luxuosas montadas para relaxamento, praxe em muitos congressos da área da saúde, na Tenda Paulo Freire o Espaço do Cuidado é uma ação estratégica afetiva, terapêutica e política. “As práticas integrativas e complementares devem ser uma prioridade na gestão do SUS, por isso valorizamos elas no nosso espaço. Queremos elas estejam presentes nas unidades básicas, nos postos e hospitais, pois elas possibilitam uma outra forma de fazer saúde”, definiu Simone Leite Batista, representante da Articulação Nacional de Movimentos e práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS), uma das entidades responsáveis pela organização da ação.

Pesquisador dedicado à Educação Popular em Saúde e à Nutrição Social, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e integrante da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CCSHS/Abrasco), Pedro Cruz ressaltou o papel da Tenda como expressão prática do agir emancipatório em saúde. “Para a Comissão há um significado especial da montagem da Tenda Paulo Freire nessa edição do evento, tendo em vista que cada vez mais a Abrasco prioriza uma produção implicada do fazer científico. A tenda é coerente com a perspectiva abraçada pelo Congresso e pela Associação.”

Questão indígena no centro da roda: Sempre com as raízes fincadas no território onde está, a Tenda Paulo Freire valorizou neste 7º CBCSHS os debates e as questões mato-grossenses e do Centro-Oeste, como o resgate da ancestralidades e das práticas de cuidado das 42 etnias indígenas presentes no território estadual, silenciadas e tratadas com subalternidade ao longo da história nacional e local.

Tamanha é a importância do tema que uma das atividades que mais atraiu público foi a Roda Decolonial – Escutando e Conversando com os Xamãs, realizada na terça-feira, 11. A atividade teve a participação do pajé Racide Matuawa, da etnia Kurâ-Bakairi, da aldeia Pakuera, localizada dentro dos limites do município de Paranatinga (MT).

Em seu idioma de origem, Racide Matuawa falou sobre cosmologia, compreensão do processo saúde e doença e pensamento ecológico dessa etnia, além de contar sua peculiar trajetória na pajelança. Realizou ainda atendimento, entoando cantos sagrados. A atividade teve a tradução de Isabel Talkani, também da etnia Kurâ-Bakairi e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais e Contemporâneos (ECCO/UFMT).

“O trabalho foi uma dificuldade. Meu sonho era ser pajé. Tomei remédio, fiquei isolado no mato por muito tempo” disse Racide Matuawa à reportagem articulando as ideias em português. A conversa teve a mediação de Cláudia Maria Guimarães Castro, pesquisadora de saúde indígena da Escola de Saúde Pública do Mato Grosso e Conselheira de Saúde do Estado (CES-MT). “A trajetória da formação deste xamã – nome adotado internacionalmente para designar os nossos pajés – iniciou em sua infância e foi interrompida devido a epidemias de tuberculose e conflitos sociais que levaram à morte de seus pais e avós. Racide passou vários anos até se reencontrar no caminho de formação como xamã, passando por um processo longo de isolamento e estudos espirituais”, explicou Claudia, que trabalha com a temática há 20 anos.

“Estou bem alegre por estar aqui. Fui convidado pela Claudia, nunca tinha vindo num congresso. Estava triste e depois alegre. Evento dá cadeira, tem apoio, tem nome. Vou levar novidades para a minha aldeia” explicou Racide, tentando dar conta dos conflitantes sentimentos e acontecimentos vivenciados por ele, esposa e neto. Foi a primeira vez que deixaram a aldeia para falar a respeito das práticas de cultura e saúde da etnia dos Kurâ-Baikiri. Rodaram de carro os 338 quilômetros que separam Paranatinga de Cuiabá, numa viagem de um dia inteiro. Tiveram contato com um hotel e andaram de elevador. Todo esse esforço valeu. A partir de sua participação na roda surgiu a proposta de se realizar o primeiro encontro de pajés do estado em diálogo com a gestão da saúde estadual e a SESAI/MS.

Mensagem às novas gerações: Instalada na área comum dos blocos didáticos e em sintonia com a Tenda, a Feira Itinerante do Território da Cidadania da Baixada Cuiabana promoveu a Economia Solidária e trouxe para o evento artesanatos cuiabanos e estrangeiros, produtos do extrativismo e plantas naturais. Chamou a atenção também a quantidade de gente jovem nas atividades. Estudantes dos programas de pós-graduação de diversas universidades e da graduação em Saúde Coletiva do ISC/UFMT participaram vivamente. “Somos nós, os estudantes, que realizamos o contato direto com a comunidade nas pesquisas. Participar da Tenda ajuda a trazer ainda mais esse grau de realidade e de presença para a nossa formação”, argumentou Luiz Gustavo de Souza lima, também aluno do ECCO/UFMT. Ele foi uma das muitas mãos que juntas formularam a Carta Aberta da Tenda ao 7º CBCSHS, que, entre críticas e elogios à organização do evento, tem a consciência do papel desempenhado “como um espaço em que potencializaram-se a riqueza dos diálogos, unindo as práticas populares de cuidado, as práticas integrativas e complementares, além das práticas tradicionais indígenas como via necessária para a construção do inédito viável”. Clique e acesse o documento.

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