Série Especial – Minientrevistas Grandes Debates do VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde


Acompanhe a Série Especial de minientrevistas com os participantes confirmados nos Grandes Debates do VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, que acontece de 13 a 17 de novembro, no Rio de Janeiro.

Dina Czeresnia

É pesquisadora titular da Escola de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP-Fiocruz), com pós-doutorado em Filosofia no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS-UFRJ). Desenvolve estudos nas linhas de pesquisas de teorias de doença, história e conceitos da epidemiologia e promoção da saúde. Entre seus mais recentes escritos, publicou o livro Categoria Vida: reflexões para uma nova biologia, pela parceria Unesp/Fiocruz.  É uma das participantes do Grande Debate Vida, Saúde e Ambiente, que acontecerá no sábado, 16 de novembro.

Abrasco: Vida, Saúde e Ambiente é o tema do Grande Debate que contará com a sua participação. Como esses três elementos se articulam dentro do capitalismo contemporâneo, que os apregoa como objetos para serem consumidos, mercantilizados e monetarizados?

Dina Czeresnia: Quando a vida, em todas as suas dimensões, é socialmente tratada como objeto de consumo e lucro ocorrem inúmeras perversões que se expressam na qualidade dos ambientes, da saúde e da vida. Esses três elementos são indissociáveis.  Sabemos que muitos dos problemas que hoje fazem parte da nossa realidade foram constituídos em uma longa história de desigualdades, iniquidades e desvalorização da vida. As consequências ambientais desses processos e suas repercussões na saúde humana formam um grande tema de estudos em saúde coletiva, assim como a mercantilização da assistência à saúde.

Abrasco: Quais ferramentas e/ou norteadores a senhora acredita que melhor reunam e/ou apontem a busca da integralidade da saúde e da  vida de homens e mulheres?
Dina Czeresnia: Estamos imersos em uma realidade dicotômica, os diversos campos da saúde coletiva herdaram uma compreensão fragmentada sobre o corpo e as suas circunstâncias. Desde o final do século XX, esse problema se tornou mais explícito e o recurso a um pensamento complexo e sistêmico tornou-se mais presente na ciência e na vida social, mesmo que ainda não tenha alcançado efetivamente uma visão integral do ser humano.  Penso que precisamos fortalecer essa procura e abrir caminhos para que homens e mulheres possam ser considerados em suas singularidades e diferenças, sem isso estar vinculado a uma forma reduzida de estabelecer separações e recortes. A melhor ferramenta é a criatividade e a capacidade de pensar e elaborar as mudanças que ocorrem cada vez mais rapidamente e que configuram novos desafios  à nossa compreensão e ação no mundo contemporâneo.

Abrasco: Qual a importância da troca de saberes entre as ciências biológicas, médicas e humanas para o campo da saúde coletiva, como busca proporcionar o VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde?

Dina Czeresnia: A comunicação entre os campos científicos é um dos principais requisitos para alcançar a integralidade da saúde. No discurso da saúde coletiva foram consideradas dualidades como biológico e social, natureza e cultura, individual e coletivo, sujeito e objeto. Hoje essas dicotomias podem ser vistas como falsas questões. Mudanças no conhecimento científico precisam ser integradas a novas formas de pensar que superam as dicotomias e, para isso, é importante  a articulação entre saberes. Por exemplo, no contexto da biologia molecular, o conceito de individualidade vem sendo questionado e isso tem repercussões importantes na ecologia e nas ciências humanas e  sociais.

 

Giovanni Alves


É professor da UNESP-Marilia, livre-docente em teoria sociológica e um dos líderes do GPEG – Grupo de Pesquisa “Estudos da Globalização”. Coordena ainda o projeto de extensão Tela Critica, voltado para a produção de material pedagógico em sociologia para análise e debate de grandes obras do cinema mundial, entre outros. É um dos participantes do Grande Debate Precarização do Trabalho e Deterioração das Relações Sociais no Contexto da Crise: Implicações para a Saúde Humana, que acontecerá no sábado, 16 de novembro.
Abrasco:  O senhor afirma que, no modo de vida just in time, vivemos uma vida invertida, uma compressão do tempo junto com uma excessiva presentificação. Que elementos da vida urbana evidenciam essa análise e como eles acarretam consequências para a saúde das coletividades?

Giovanni Alves: Neodesenvolvimentismo, choque de capitalismo flexível, toyotismo sistêmico, modo de vida “just-in-time”, vida reduzida com todos seus componentes orgânicos (vida invertida, sinalizada,“capturada”, veloz e enxuta) – são elementos causais do novo metabolismo social do capital no Brasil do século XXI. Obviamente, eles possuem um rebatimento territorial nas metrópoles hipertrofiadas de uma das mais desiguais sociedade capitalista do mundo – o Brasil. Por exemplo, a perda da mobilidade urbana (com tudo aquilo que isto implica existencialmente) e a corrosão veloz dos espaços públicos pelos vetores da civilização do automóvel e pela lógica territorial do consumo privado em torno da qual se erige o metabolismo social do capital, contribuem efetivamente para criar o fenômeno grotesco da vida reduzida. O cinema nacional dos últimos dez anos expressou em algumas narrativas o esvaziamento da vida das camadas médias do proletariado nas metrópoles. Por exemplo, os filmes “Trabalhar Cansa” (de Juliana Rojas e Marcos Dutra) e “O som ao redor” (de Kleber Mendonça Filho) expõem, cada um a seu modo, o drama existencial de uma “classe média” assalariada ou rentista cercada não apenas por uma gestão do trabalho toyotista, mas por um modo de vida perverso que reduz o espaço urbano a espaços privados amesquinhados dos condomínios fechados. Por isso, o medo insano que a “classe média” assalariada ou rentista tem dos pobres marginais ou lumpensinato que cercam, como um “espectro da barbárie social”, os condomínios privados desses estamentos médios endinheirados da sociedade senhorial. Enfim, o rebatimento das condições de existência estranhada sobre a saúde dos homens e mulheres imersos na gestão do trabalho toyotista e modo de vida “just-in-time” é obviamente perverso (com todo significado que está palavra possa ter no plano psicanalítico: perversidade significa gozarmos com aquilo que nos submete e desefetiva enquanto ser humano-genérico).
Confira aqui a íntegra da entrevista de Giovanni Alves

 

Kenneth Camargo

É doutor em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pós-doutor na McGill University. Atualmente é professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, editor da revista Physis e editor associado do American Journal of Public Health. No VI CBCSHS, irá coordenar o grande debate Teocracia e fundamentalismos na contemporaneidade: Ameaças à cidadania e ao Estado laico.

Abrasco: Como respeitar às religiosidades e seus fundamentos sem incorrer nos erros e abusos de poder dos pensamentos teocráticos que ecoam na sociedade brasileira?

Kenneth Camargo: Não há possibilidade de garantia de culto, fruto de nossa sociedade de direito, sem a garantia do Estado laico. No momento em que o Estado assume oficialmente qualquer religião, independente de qual ela seja, automaticamente qualquer pessoa que não seja seguidora da doutrina ou de suas variantes, vai começar a ter problemas. As questões morais hoje em debate no país estão sendo utilizadas por setores conservadores como uma cunha para tentar introduzir na legislação o retorno a um Estado teocrático, o que deixamos lá atrás com a instauração da República. 

Abrasco: Quais estratégias o senhor avalia que estão em curso pelos defensores de visões teocráticas?

Kenneth Camargo: Há uma guerra linguística, pois certo grupo de parlamentares se autodenomina como bancada de uma determinada corrente religiosa. Me recuso a usar este nome, pois a partir do momento em que setores da sociedade se mostram contrários a suas políticas, eles se utilizam do argumento de que esses grupos são contra a religião como o todo, o que não é verdade. Há linguistas que apontam certos enquadramentos de palavrase determinadas questões já derrotam o oponente antes de qualquer conversa começar. Vemos a força de um conjunto de movimentos teocrátas que querem impor uma agenda fundamentalista , constituindo uma verdadeira violação ao Estado democrático de direito. Para completar, é uma bancada ausente, sem legitimidade política a não se se escudar atrás do discurso da religião. O tipo de legislação que eles acabam propondo e encampando são regressivas e, de uma forma ou de outra, opressiva em relação a alguma minoria. Um exemplo dessa ação foi a tentativa de forçar a presidência da República a vetar uma lei que regulamentava a atenção no SUS às vítimas de agressão sexual.

Abrasco: Qual a importância da produção científica iluminar estas questões dentro dos espaços institucionais e públicos, muitos deles ainda portadores dessa confusão entre religião e Estado, como a permanência de crucifixos em repartições públicas, entre outros casos?

Kenneth Camargo: Temos de desconstruir essa história de sermos uma nação cristã e reafirmar que somos um país plural, multireligioso e que está aberto a pensamentos de diversas origens. O lugar da ciência e da academia é prover este espaço reflexivo e crítico no qual se pode sair das lógicas fechadas em si mesmas, como são os pensamentos religiosos que defendem essas estratégias, autojustificadores.

Abrasco: O VI Congresso de Ciências Sociais e Humanas em Saúde contará, entre os congressistas, com muitos profissionais de atenção básica, que estão na ponta do sistema de saúde. Como eles podem se valer dos temas dos grandes debates?

Kenneth Camargo: Há anos atrás um grupo do ISER (Instituto de Estudos da Religião) fez uma publicação que resgatava a história de diversos mitos africanos e, ao mesmo tempo em  que dialogava com as tradições religiosas, mostrava práticas importantes para um trabalho de prevenção em saúde relacionados a este culto. Esse é um exemplo de como esses debates da antropologia da religião e da sociologia da religião tornam inteligíveis a ação política desses grupos e lhes garante visibilidade e mensagens positivas, além de mostrar como os preconceitos trazem interferências na área da saúde.

Sérgio Carrara

Cientista Social formado pela Unicamp e doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional, é professor associado da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), coordenador do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM/IMS/Uerj) e membro do Laboratório Integrado em Diversidade Sexual e de Gênero, Políticas e Direitos (LIDIS/Uerj)

Abrasco: Qual é a importância de se debater as formas de discriminação social e suas repercussões na saúde?
Sérgio Carrara: Se tomarmos o conceito de saúde como definido pela OMS, que abarca o completo bem-estar físico-psíquico e social, não é possível ser saudável sendo alvo de preconceitos. Parece uma banalidade discutir esses impactos, mas, em certo sentido, é uma abordagem relativamente nova em termos de estudos mais sistemáticos, seja nas tentativas de quantificação como na produção de pensamentos mais refinados sobre esses impactos. Há vários planos nos quais o preconceito apresenta essa dimensão. A violência física é o mais imediato, mas há também a negligência. O preconceito pode matar diretamente, como pode também deixar morrer. Isto tem a ver diretamente com o sistema de saúde: como elas são acolhidas e atendidas nesse serviço e como as pessoas se dispõem ou evitam a procurar ajuda, por medo ou antecipação de posições preconceituosas e descriminadoras.

Abrasco: No debate da homossexualidade, ainda encontra-se forte os discursos acerca dos grupos de risco. Como o senhor vê este tema na perspectiva de uma saúde mais inclusiva?
Sérgio Carrara: Independentemente do conceito e dos debates acerca dos grupos de risco, desenhe-se no horizonte o silenciamento, ou seja, uma outra forma do preconceito na qual se nega a existência de um problema. Digo isso pois nem as ações do Ministério da Saúde em prol da prevenção de doenças entre homens que fazem sexo com homens, como é apresentado pela terminologia oficial, estão acontecendo, tendo em vista que foi suspensa a campanha sobre o uso de preservativos que mostrava a troca de olhares entre dois homens.

Abrasco:  Qual é a importância da Academia e das suas entidades científicas, como a Abrasco, debaterem os grandes temas sociedade em seus encontros, como no VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde?
Sérgio Carrara: O discurso da saúde é poderoso em vários planos, pois lida com questões que tocam imediatamente na vida das pessoas e aos interesses do Estado e dos governos. O Congresso de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Abrasco será uma oportunidade para o campo da Saúde Coletiva se posicionar em relação a esses temas que estão na ordem do dia. O direito das mulheres e a questão do aborto aponta um retrocesso, com posições que vão se consolidando e ganhando espaço no Congresso Nacional, como a tentativa de acabar com o que já havia-se conquistado em termos do aborto legal. Um tema já consensuado no debate da saúde, pois é fácil mapear o número de mulheres internadas por conta de complicações com abortos ilegais, um número imenso. Já as questões relativas à homofobia trazem dados mais imprecisos, não se consegue medir tão claramente os números da violência, mas está aí, nas escolas e nos serviços de saúde. O debate LGBT em saúde é um debate em gestação e este é o momento para que esta questão seja melhor trabalhada em busca de ações mais democráticas.

 

 

Jean Wyllys
Escritor, professor universitário de Comunicação Social e eleito deputado federal pelo PSOL-RJ para o mandato 2011-2015, Jean Wyllys tem sido uma referência na defesa, luta e debate público dos Direitos Humanos; direitos LGBT; pluralismo religioso e cultura. Atua em dez frentes e comissões na Câmara dos Deputados e recebeu condecorações e menções de reconhecimento de seu trabalho, como a medalha Pedro Ernesto (CVRJ) e o prêmio de melhor deputado pelo site Congresso em Foco. É também colunista na revista Carta Capital.
Abrasco: Como respeitar às religiosidades e seus fundamentos sem incorrer nos erros e abusos de poder dos pensamentos teocráticos que ecoam na sociedade brasileira?

Jean Wyllys: O único meio é o fortalecimento da laicidade como componente fundamental do Estado brasileiro. Um Estado laico não tem paixão religiosa, mas, ao mesmo tempo, assegura a cada indivíduo e a cada grupo que professe a religião que melhor lhes responde filosoficamente as questões do mundo. O Brasil é um país plurirreligioso, todas as religiões colaboraram para o que chamamos de identidade nacional e não se pode esquecer isto. Respeitamos as religiões, asseguramos a liberdade de crença e é necessário que o Estado esteja protegido da influência de grupos para assim trabalhar por todos.

 

Abrasco: Como a sociedade civil e os poderes republicanos podem e devem enfrentar o problema da discriminação social em nosso país?

Jean Wyllys: Os poderes executivos devem deixar claro que as questões da fé privada não podem interferir na gestão pública. Isso deve ser passado como receita a cada contratação, promoção, a cada novo mandato. O presidente da República; governadores; prefeitos, e seus secretários e ministros não podem estar sob pressão de grupos religiosos na hora de elaborar e executar políticas públicas. No âmbito do legislativo, temos de fazer valer a defesa da Constituição Cidadã feita por todos os parlamentares no juramento de posse. Entre esses fundamentos, consta o artigo 5º, que garante que somos todos iguais perante a lei. Se o parlamento tomar esse cuidado e a sociedade acompanhar este cumprimento, a bancada religiosa não poderá propor projetos que contrariam os princípios da dignidade humana. O Judiciário também tem de trabalhar numa perspectiva laica, impedindo qualquer juiz de agir ou confundir suas ideias pessoais de Justiça com os dogmas da sua fé.

 

Abrasco: Qual é a importância da Academia e das suas entidades científicas, como a Abrasco, debaterem os grandes temas sociedade em seus encontros, como no VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde?

 

Jean Wyllys: A academia é um lugar de produção e reprodução do saber científico, saber este que se coloca em permanente revisão e não reivindica valores atemporais e absolutos, posições fundamentais na construção do imaginário e do bem estar social. As universidades têm de aprofundar essa função e espaço de confrontação com o senso comum. Os professores e chefes de departamento não podem ter medo dos preconceitos que muitos alunos trazem quando são aprovados, não devem se curvar a situações estúpidas e pressões, principalmente em instituições privadas. O professor não pode fugir a missão de construir cidadãos capazes de fazer suas leituras críticas do mundo e desenvolverem aquilo que Hannah Arendt chama de vida com pensamento. O papel da academia é construir vida com pensamento e, por isso, espaços o Congresso da Abrasco são importantíssimos para essa discussão. Fico feliz dele se realizar e de ter sido convidado, o que espero retribuir com minha presença e colaboração.

 

Série Especial Minientrevistas VI CBCSHS – Maria do Socorro de Souza


Maria do Socorro de Souza:

Assessora de Políticas Sociais da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), Maria do Socorro é a primeira mulher e usuária do Sistema Único de Saúde a ocupar a presidência do Conselho Nacional de Saúde (CNS).

 

Abrasco: Desde o início das manifestações de Junho, as pautas e temas relacionados à saúde ganharam visibilidade como nunca antes no Brasil. O debate saiu da fila do SUS e agora abarca outras questões. Como a senhora percebe essa ampliação no debate social?

Maria do Socorro:  As mobilizações de junho mostraram que o efeito do SUS na vida do povo brasileiro, após 25 anos de sua implementação, é menor do que o esperado. Ao clamarem por uma saúde padrão FIFA mostram que – apesar da conquista legal da saúde como dever do Estado e direito de todos cidadãos – , vivemos no dia a dia muitas dificuldades para garantir esse direito. A conjuntura favoreceu esse destaque da saúde na agenda da sociedade, do governo,  do Congresso Nacional e da mídia, ainda que a partir de temas emergenciais, como o Programa Mais Médico e Mais Saúde; polêmicos e complexos, como a Lei do Ato Médico; alguns de cunho conservador, como a internação compulsória, a cura gay e o Estatuto do Nascituro; e outros importantes para o resgate da credibilidade e legitimidade do SUS perante a sociedade, como o Serviço Civil Obrigatório,  a Lei de Responsabilidade Sanitária e a Lei de Iniciativa Popular por 10% da Receita Corrente Bruta da União. Contudo, a velha saga por que passa diariamente a população continua no campo da assistência médica, consagrada pelas filas presenciais e virtuais nos pronto-socorros, ambulatórios e hospitais, mostrando como ainda é baixa capacidade da gestão pública em responder de forma resolutiva às demandas de saúde da população.

Abrasco – Como a sociedade civil e os poderes republicanos podem e devem enfrentar os gargalos da saúde em nosso país?

 

Maria do Socorro:  As ruas mostraram que a saúde deve ser tratada pelo Estado e pela sociedade brasileira como prioridade nacional, e que sua solução passa pelo resgate da credibilidade e legitimidade do SUS, pela afirmação da saúde como política social importante para o desenvolvimento do país e para o pacto de democracia e cidadania brasileira. Superar as antigas heranças,  os limites impostos pela política econômica do país, e apontar soluções definitivas para consolidar o SUS exige determinação política dos poderes republicanos nos três níveis, em especial do governo federal e do Congresso Nacional. Significa encontrar solução para um financiamento  adequado, formulação e implementação de plano de cargos, carreiras e salários para os profissionais de saúde, e uma qualificação para que a gestão pública seja eficiente, transparente e democrática de modo a combater a corrupção e todas formas de privatização. Mas uma condição para isso é certa: a permanente mobilização e a pressão popular.

Abrasco – Qual é a importância da Academia (entendendo-a pela comunidade de professores, pesquisadores e estudantes) e das suas entidades científicas, como a Abrasco, debaterem os grandes temas sociedada brasileira em seus encontros, como é o caso do VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde?

 

Maria do Socorro: A produção do conhecimento no setor saúde por entidades como a Abrasco, CEBES, Sociedade Brasileira de Bioética, Rede Unida, Fiocruz, dentre tantas outras,  tem contribuído para fundamentar e qualificar a  luta política  em defesa do SUS e para o avanço do desenvolvimento científico e tecnológico do setor. Isso é possível porque essas entidades científicas têm assumido postura crítica, autônoma  e propositiva frente às medidas governamentais. Sua contribuição, contudo, ganha maior envergadura a medida que rompem os muros do academicismo e ganham capilaridade junto às organizações de trabalhadores da saúde, movimentos sociais, setores populares.  É necessário articular esses temas e dele produzir ações no interior das esferas do controle social da saúde, para assim ajudar a superar as contradições e as tensões da luta política no dia-a-dia, fazendo valer o interesse público e a satisfação das necessidades de saúde do povo brasileiro.

Série Especial Minientrevistas VI CBCSHS – Madel Luz

Madel Therezinha Luz

Formada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com mestrado em Sociologia pela Université Catholique de Louvain  e doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Madel Luz é um dos grandes nomes no debate sobre a produção científica em Saúde Coletiva e Epistemologia da ciência. Atualmente é professora titular aposentada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da UFRJ, mas prossegue colaborando com essas instituições e também com programas de pós-graduação da UFF e da UFRGS.

 

 

 

Abrasco: Como a senhora entende o debate do produtivismo dentro da atividade científica, acadêmica e universitária?
Madel Therezinha Luz: Desde o início da minha vivência dedicada ao conhecimento em 35 anos de trabalho, me preocupei com esta questão. Vivemos um ambiente acadêmico e universitário notoriamente produtivista e competitivo. Logo, é vital pensar em como criar espaços para a troca de saberes e conhecimentos num processo que envolva pesquisadores titulares e professores e também pesquisadores em iniciação e alunos. Que tipo de orientações tomar, recusar e o que visar entre o que se ensina e se pesquisa. Esta é uma preocupação legítima, tendo em vista o quão comum estão em nosso meio formas hostis à produção interior e íntegra dos acadêmicos. Cabe então a reflexão e a busca por um modelo diferente, respeitoso e solidário em relação ao outro, aos pares e, se possível, construtivo, auxiliando as pessoas a fazerem seus próprios caminhos neste mundo sem abafar o desenvolvimento profissional alheio.

Abrasco: Como enfrentar esta questão no dia a dia das universidades e centros de pesquisa?
Madel Therezinha Luz: A primeira coisa é exercitar uma diminuição do ego, uma natureza que logo aparece no contato com os intelectuais. Tentar diminuir isso ao mínimo para permitir o desenvolvimento do outro, seja um colega, um orientando, um aluno. Sair do individualismo e pensar com os outros, para assim criar um pensamento coletivo que não quer agarrar nada para si, mas ofertar um produto bom para todos. Não querer eliminar os adversários como os pugilistas, mas sim desenvolver uma compreensão como a dos maratonistas, que competem consigo mesmos. Se conseguirmos ter um pouco dessa postura, podemos diminuir o produtivismo individualista na academia. É um desafio para produzir mais, melhor e com solidariedade.

Abrasco: Qual é a importância do VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde debater este tema?
Madel Therezinha Luz: A universidade e as instituições de pesquisa são habitualmente fechadas em si mesmas. Sou budista, e meu mestre, que foi professor universitário de Física por 25 anos, diz que o lugar mais difícil para esse tipo de troca é a universidade. Ao mesmo tempo, a academia é um lugar único por produzir conhecimento apoiado na ciência. Não é bom para a saúde dos homens competir, mas sim buscar um mundo mais fraterno e solidário. Mudar essas formas de produzir causam um impacto profundo, tanto para a universidade como para a sociedade. É da sociedade que vem as mensagens para a academia mudar, se mudar. Participar de um congresso como o de Ciências Sociais e Humanas em Saúde que traz esta mensagem para o conjunto das ciências, suas instituições e associações é muito importante.

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