“Que João Pessoa surpreenda pela emergência da defesa da vida”

 

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A menos de 2 meses do 8º Congresso de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (8ºCBCSHS), os números falam por si: foram quase mil resumos submetidos, com expectativa de mais de 1200 participantes em 36 grupos temáticos – fruto da fusão e reorganização de mais de 100 propostas. Para Roseni Pinheiro, professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj), são marcas do trabalho coletivo da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CCSHS/Abrasco) e fruto de ações das edições anteriores.

“Foi um processo de seleção intenso, que exigiu da Comissão Científica uma combinação entre rigor e sensibilidade” analisa ela, destacando a importância da área em preservar e estimular a troca de conhecimento e o intercâmbio institucional, uma das funções essenciais das atividades de pesquisa, extensão e ensino.

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De 2013, ano do 6º CBCSHS, para o atual 2019, muita coisa mudou. “Estamos vivenciando tempos bastante sombrios. Presenciamos medidas governamentais que aumentam ainda mais a desigualdade, tendo em vista a retirada de direitos e o não reconhecimento das demandas e necessidades de saúde, principalmente das populações vulneráveis, das minorias, das mulheres, da população LGBTQ+. Inevitavelmente, a iniquidade também se aprofunda com a sombra da incerteza”.

Uma resposta possível ao atual cenário é a própria realização do evento em toda potência apontada no tema do bem-viver, que bebe e retorna ao pensamento social latino-americano – referência de origem das Ciências Sociais dentro da Saúde Pública – para se reinventar. “Como afirma o político e economista equatoriano Alberto Acosta, o bem-viver é um conceito aberto e plural, que só pode ser consolidado em um mundo pensado e construído democraticamente”.

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Para esse exercício de democracia e pluralidade, nada melhor do que um Congresso que traga essa proposta em sua raiz. “As Tendas de Educação Popular em Saúde (EPS) têm se constituído como um ponto alto nos congressos da área, como foi no 7ºCBCSHS, em Cuiabá, na medida em que se configuram em espaços de construção compartilhada do conhecimento e de saberes em defesa do SUS. Não demorou muito para constatarmos que a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com apoio do grupo de pesquisa, ensino e extensão em Educação Popular em Saúde, deveria ser a anfitriã do Congresso de 2019. Esperamos que João Pessoa nos surpreenda pela emergência da defesa da vida humana em sociedade, em si só uma fonte viva de teorias e ações emancipatórias comprometidas com o respeito às alteridades” completa a abrasquiana. Leia a entrevista abaixo.

Abrasco: Para você, qual a importância de se realizar o 8º CBCSHS nesse ano de 2019?
Roseni Pinheiro: Realizar nosso Congresso reveste-se de dupla importância, na medida em que, de um lado, fortalecemos as Ciências Humanas e Sociais dentro da Saúde Coletiva e ampliamos a resistência e defesa dessa grande área, que tem sido submetida a inúmeros ataques pelo atual governo, seja pela aplicação de profundos cortes de verbas, seja pela forte tutela sobre seus conteúdos nos diferentes níveis da educação.

Logo, nada mais oportuno, desafiador e urgente do que realizarmos o 8º CBCSH, pois carece reiterar nossa responsabilidade, da qual não podemos nos esquivar, que é pararmos para pensar no que estamos fazendo! Se antes lutávamos para ter direitos a mais direitos, agora temos que lutar, paradoxalmente, com todas as forças dos pensamentos e das ações para não os perder.

Abrasco: Você presidiu o 6º CBCSHS, realizado em 2013, no Rio de Janeiro, e também esteve envolvida com a 7ª edição, realizada em Cuiabá, em 2016. De lá para cá, qual a avaliação sobre a maturação das pautas e temas de debate travados nos congressos?
Roseni Pinheiro: Em 2013, já tínhamos um contexto bastante emblemático no país e no mundo. Ao menos dois acontecimentos, que se configuraram como “marcadores sócio-históricos e políticos”, já anunciavam tempos muitos difíceis para os anos seguintes: a enorme onda de protestos de rua, ocorrida em junho daquele ano, que se espalharam pelas principais capitais do país, sob os lemas “Vem Pra Rua” e “Não é pelos 20 centavos”, e o auge da guerra da Síria, onde o conflito se iniciou com os protestos incentivados pela Primavera Árabe. A efervescência desses movimentos serviu de combustível para inúmeros debates e defesas de pautas que propiciaram a definição do tema central do 6º Congresso “Circulação e diálogos entre os saberes e as práticas no campo da Saúde Coletiva”, realizado na UERJ. Foi um congresso que se dedicou também a rever, sistematizar e deixar registrado o percurso da nossa área, tarefa essa realizada pelo “Projeto Memória: 30 anos da Comissão de Ciências Sociais e Humanas”.

Já em 2016, o tema da sétima edição foi “Pensamento Crítico, emancipação e alteridade: agir em saúde na (ad)diversidade”, que se propôs a ser um ponto de concentração do pensamento vivo em saúde, como falava a presidente Tatiana Engel Gerhardt. Foi um evento que abriu oportunidade para nos posicionarmos de maneira ampla e transparente, inclusive fortalecendo debates desenvolvidos pela própria Abrasco nos últimos anos, como a defesa de nenhum direito a menos. A realização do “Ato em Defesa do SUS e da Democracia” na terceira noite do evento foi a marca desse signo e que deve servir de inspiração, acredito eu, para uma nova mobilização necessária neste congresso de 2019.

Penso que os dois últimos congressos e este próximo configuram um percurso de críticas das coisas, das instituições das práticas e discursos na Saúde Coletiva. Trata-se de críticas que não datam de hoje, que surgem na forma de fragmentos de saberes em diferentes lugares-tempos, ou mesmo de pequenas genealogias que não se reduzem apenas à identificação de problemas, mas à construção de soluções e respostas que se prestam como um cuidar, um cuidar de si, de nós, do agora, um cuidado com o mundo.

Abrasco: Como foi o processo de seleção dos GTs para o Congresso?
Roseni Pinheiro: Foi um processo de seleção intenso, o que exigiu da comissão científica uma combinação entre rigor e sensibilidade. A interdisciplinaridade é uma exigência para nos constituirmos como campo de conhecimento, e disso não podemos e nem queremos nos esquivar.

Juntamente a esse movimento, a interinstitucionalidade possibilitou alcançar uma riqueza maior acerca da diversidade de temáticas dos GTs, reunindo grupos, coletivos e estilos de pensamentos diversos entre instituições de ensino, pesquisa e ativistas das cinco regiões do país.

Logo, nessa edição queremos propiciar maior inclusão dos movimentos sociais nas atividades dos GTs e programação do evento, o que, sem dúvida, se configura como um diferencial importante desse congresso.

Abrasco: “Igualdade nas diferenças: enfrentamentos na construção compartilhada do bem viver e o SUS” ´é o tema desta 8ª edição. Que elementos do debate sobre o bem-viver podem trazer para os campos acadêmico, social e político e como eles podem fortalecer o SUS?
Roseni Pinheiro: Com esse tema, acredito que pavimentamos um solo epistemológico capaz de contribuir para uma melhor compreensão sobre a pluralidade das demandas, ao mesmo tempo que podemos pensar e agir para apresentar respostas eficazes para as questões atuais. Trata-se de um posicionamento sustentado pela disposição crítica, responsável e orgânica que caracteriza as Ciências Sociais e Humanas em Saúde e fortalece nossa Associação.

Das diferentes leituras sobre o conceito de bem-viver, a formulação de Acosta uma das mais edificantes, com uma reciprocidade epistemológica afirmativa com a ideia de responsabilidade coletiva de Hannah Arendt, grande filósofa do século XX, cujo pensamento tenho me dedicado a estudar. Esses dois intelectuais têm muito a contribuir para se (re)pensar o cuidado na Saúde Coletiva. Desta forma, o SUS é, em grande medida, parte do mundo da saúde que se apresenta como espaço de construção de cidadania com igualdade nas diferenças e que exige de nós cuidado, tendo na educação a decisão prática de prosseguir em defesa da vida das futuras gerações.

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