Obra e vida de Ricardo Bruno Mendes-Gonçalves foi tema de mesa-redonda


Quatro grandes pesquisadores revisitaram a obra de Ricardo Bruno Mendes-Gonçalves no último dia do 7º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (7º CBCSHS) da Abrasco, que aconteceu na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá (MT). O evento reuniu Everardo Duarte Nunes (Unicamp), Naomar de Almeida Filho (UFSB) e Semiramis de Melo Rocha (USP), sob coordenação de Lilia Blima Schraiber (USP), para falar sobre o trabalho do pesquisador na mesa “Saúde, Sociedade e História: uma revisita às contribuições de Ricardo Bruno Mendes-Gonçalves”. O encontro antecipou considerações e interpretações sobre a obra de Mendes-Gonçalves que estarão no livro “Saúde, Sociedade e História” cujo lançamento será em breve.

“Sua produção teórica influenciou toda uma geração de estudantes e pesquisadores. [..] 20 anos após sua morte, em 1º de maio de 1996, seu trabalho ainda é uma obra de referência”. Na coordenação da mesa, Lilia Blima destacou a importância da recuperação da obra de Ricardo Bruno com uma nova edição que traz comentários dos integrantes da mesa e outros pesquisadores que contribuíram para o livro. O sociólogo Everardo Duarte Nunes, que contribuiu para o livro fazendo uma leitura da dissertação de Ricardo Bruno – “Medicina e História: raízes sociais do trabalho médico” –, de novembro de 1979, se baseou nos textos que fundamentaram o trabalho de Ricardo Bruno, obras de autores como Marx, Sartre e Canguilhem. E destacou que o autor mostra como os clássicos da sociologia podem contribuir para uma leitura do contexto mais atual, o que Bruno fez ao desenvolver sua dissertação.

Ao falar do contexto da época em que dissertação de Ricardo Bruno foi defendida, Everardo Nunes chamou a atenção para o papel do trabalho do autor naquele cenário. “Outra questão que não pode deixar de ser lembrada, e isso está registrado, documentado, é que não foi fácil o percurso da intelectualidade que, vindo da profunda repressão, em consequência do golpe militar de 1964, sofreria ainda mais especialmente a partir de 1968 com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que baixado em dezembro desse ano duraria até dezembro de 1978. Em 79 ocorre a defesa da dissertação de Ricardo, ou seja, em pleno momento em que essas questões estavam sendo vivenciadas por muitos professores, estudantes e sanitaristas.

Mesmo convivendo com as arbitrariedades da ditadura militar, parte expressiva da produção científica das ciências sociais em saúde e da saúde coletiva foi elaborada nesse período. Uma produção de alto teor teórico inovador e um dos exemplos que podemos trazer é a dissertação de Ricardo”. A aproximação de Ricardo Bruno com a enfermagem e suas contribuições para a área foram destacadas por Semiramis de Melo Rocha. A pesquisadora, que fez apontamentos sobre o texto “Trabalho em saúde e pesquisa: reflexão a propósito das possibilidades e limites da prática de enfermagem”, ressaltou a importância da racionalidade científica para produção de conhecimento racional sobre os obstáculos do cotidiano do trabalho em saúde. E salientou a atualidade do trabalho de Ricardo Bruno para pensar os problemas da conjuntura brasileira. “Para os que conviveram com ele ficou o exemplo de um cientista brilhante que ensinou a todos os que o procuravam. […] Escrever sobre ele é manter uma chama acesa”.

A pesquisadora reiterou a relevância da iniciativa de organizar um livro sobre a obra do autor. “A linguagem de Ricardo Bruno, tanto a escrita quanto a oral, sempre foi uma linguagem complexa, permeada pela dialética, e nem sempre de fácil compreensão para os iniciantes em pesquisa. O fato do livro conter toda a sua produção faz com que possa ser sempre uma fonte para dirimir dúvidas quando os excertos dos textos, as citações, que às vezes se tornam difíceis de entender por conta da forma como o Ricardo se expressava. O livro foi uma grande iniciativa: para além de retomarmos os textos dele, podemos facilitar a orientação dos novos que estão agora tomando contato com a sua obra e se aproximando de Ricardo Bruno”.

Autor do prefácio do livro, Naomar de Almeida Filho afirmou que ao ler a obra constatou que existe um esboço de “epistemologia bruniana” ao ler todo o material. E que Ricardo Bruno abre caminho para responder o que é ciência e o que é saúde. “A ciência é um conjunto de normas, regras e deveres. É um complexo, um universo de saberes. E é também produção, os fazeres”. Para Naomar, Ricardo Bruno busca detalhar e sistematizar o que fazem aqueles que dizem produzir conhecimento e cuidado.

Um homem que ampliou temáticas

Com um pensamento que oferece aberturas e compreensão de contextos, Ricardo Bruno foi definido na mesa como um homem do seu tempo. No encerramento, Lilia Blima recordou que a tecnologia como parte do processo de trabalho foi uma das últimas questões de Ricardo Bruno. Segundo a médica, Bruno era muito crítico e um tanto resistente à tecnologia e procurava instigar que o pensamento fosse além da tecnologia em si e incluísse uma totalidade maior que mostrasse como a técnica é capaz de reproduzir o social. “Ele não era um pesquisador de gabinete, ele vivia suas questões na prática.”

Livro
Organizador do livro que reúne a obra de Ricardo Bruno (USP), em conjunto com Liliana Santos (ISC/UFBA), pesquisadora do Observatório de Analise Política em Saúde, Ricardo Ayres explicou que para a coletânea foram selecionados textos considerados fundamentais sob o ponto de vista das construções teóricas, percurso, mas também os de mais difícil acesso. Foi necessário redigitar o trabalho de Ricardo Bruno uma vez que os textos não existiam em formato digital. Para Ricardo, a coletânea faz “novos convites à reflexão fundamentais nos tempos de crise que vivemos atualmente e com os desafios que temos pela frente”. O livro será lançado em breve como e-book e posteriormente em edição física.

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