Movimento Anti-Utilitarista e Produtivismo em Grande Debate no VI CBCSHS


O Grande Debate “Movimento Anti-Utilitarista e Produtivismo no Contexto do Capitalismo Atual” no primeiro dia do VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, na UERJ, contou com a presença internacional de Alain Caillé, da Universidade de Paris Oues, Roseni Pinheiro, da UERJ, e Madel Therezinha Luz, colaboradora da UFF e URGRS. Roseni Pinheiro enfatizou a importância da presença do pesquisador francês no VI CBCSHS e que este Grande Debate é para guardar na memória.

Madel Luz iniciou o debate apresentando a provocativa da “Patologia Institucional: o produtivismo como fonte de adoecimento de pesquisadores, docentes e alunos”. Ressaltou a perda dos valores éticos pelos pesquisadores em geral, de várias áreas, e citou Max Weber como importante na definição da ética e dos valores sociais, seus sentidos e significados (fins) da ação social. “Os valores do capitalismo pós-clássico já quebraram a ética profissional em todas as áreas. O que se vê hoje é a mercantilização dos profissionais”, afirmou. Madel comentou sobre o mundo capitalista neoliberal e a interiorização de valores do mercado nas práticas institucionais e profissionais; a competição individualista, por sucesso com exclusão do concorrente, interiorizada pelas profissões tradicionalmente; como também a geração de sofrimentos entre os sujeitos. Para a pesquisadora, o trabalho é uma linha de produção, o que acarreta num produtivismo patológico. “Significa um produtivismo com o único meio legitimado de obter reconhecimento profissional e prestígio no trabalho acadêmico (ensino e pesquisa), mas também uma perspectiva quantitativa da produtividade acadêmica e como um fim em si, descolada da sociedade e das pessoas que a geram. E isso tem gerado sofrimento, adoecimento e morte, mas não só suicídio, como também o desenvolvimento de câncer”, pontuou. Outro ponto crucial da exposição está ligado às políticas públicas de fomento à pesquisa como incentivo oficial ao produtivismo.

Alain Caillé, que pediu desculpas por não falar português, ressaltando que gostaria muito de falar a língua oficial do Brasil, enfatizou o livro já traduzido para o português “Manifesto Convivialista”, uma proposta de política filosófica contra o neoliberalismo. Para ele, a apresentação de Madel Luz foi uma boa entrada para que ele pudesse desenvolver sua linha de raciocínio sobre o tema “Convivialismo”. “É natural que percebam que o conceito tem o mesmo “ismo” de “neoliberalismo”. Maus observava surpreso o tornar-se econômico do pensamento social”, disse. Caillé explica que o livro é uma segunda etapa de uma pesquisa alternativa com 64 autores franceses e alguns latino-americanos. Entre os nomes, Edgar Morin. “Pesquisadores cansados de se duelarem como inimigos mortais, decidiram, de maneira amistosa, mostrar que o que eles têm em comum supera o que os separam. E assim, criou-se o Movimento Convivialista”, enfatiza.

Caillé afirma que as economias solidárias, como as do Brasil, “grande destaque no cenário mundial”, não têm poder suficiente para vencer o neoliberalismo. Por isso, a proposta de Convivialismo tem ganhado força. “Primeiro, é preciso entender o sentido e instaurar a prática de convivermos entre nós. Depois, não podemos mais fundamentar a sociedade no produtivismo. Outro ponto também crucial: o que está faltando não é uma proposta alternativa, mas uma filosofia política alternativa. E nada mais coerente pensar assim porque o próprio neoliberalismo é uma filosofia política”, explicou Caillé, ressaltando que os autores do Movimento Convivialista defendem essa postura.

“Trata-se de uma oposição sem massacre. E por que isso é importante? Oposição entre os seres humanos é uma necessidade. É necessário que exista porque é a condição de vitalidade das relações sociais. O que acontece é que o reconhecimento das individualidades é uma tarefa difícil, ninguém quer fazer. Mas como se opor sem se massacrar? Por meio da projeção desse ódio, utilizando aqui o conceito de ‘Introjeção do ódio’, da Psicanálise. E isso começa com a criação de hierarquias sociais. Se cada um aceitar o seu lugar dentro da sociedade, não há porque haver ódio”, pontuou Cailllé.

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