Limites da Vida em debate no VI CBCSHS


Coordenada pela professora Rachel Aisengart Menezes, do IESC/UFRJ, a mesa redonda “Limites da Vida: dilemas na Assistência em Saúde” contou com a participação expositiva de Fábio Henrique Lopes (UFRRJ), Maria Luiza Heilborn (IMS/UERJ) e Greice Menezes (UFBA).

Fábio, que é do Departamento de História e do Programa de pós-Graduação em História da UFRRJ, apresentou o estudo “Vida, morte e suicídio: condições de possibilidade na biopolítica contemporânea”. A partir dele, várias reflexões foram levantadas sobre o valor transcendental da vida e sobre o domínio e normatização da morte e da vida pela política. Ao expor vários “relatos” registrados pela imprensa do final do século XIX e início do século XX, o pesquisador ressaltou a criação de sentido pela linguagem jornalística com o objetivo de gerir regulamentações da vida social ligados à vida, morte e o suicídio. E afirma, a partir de várias citações de Foucault “que a morte e o suicídio é de ordem transcendental e não de ordem política. O suicídio é próprio da vida. A imprensa, desde o final do século XIX, via biopolítica, faz essa regulamentação da vida em sociedade”.

Maria Luiza Heilborn, do Instituto de medicina Social da UERJ, inseriu à discussão suas observações sobre dois estudos franceses sobre o aborto. Para ela, as trajetórias contraceptivas são como sequência de acontecimentos e estados e não registram contracepção “contínua”. E explica: “o trabalho de contracepção é feminino e o homem recuou dessa responsabilidade por uma série de fatores. Mas também o que se vê é que nesse processo, os atos contraceptivos estão atrelados à modalidade de relacionamento com os parceiros”. Com a apresentação do trabalho “Reprodução: escolhas, contracepção e aborto”, Luiza Heilborn pôs em debate “em que contexto nós estamos discutindo o aborto na sociedade contemporânea?” e ressaltou que mesmo 80% da sociedade brasileira sendo contra ao aborto, os números de intervenções de intercepção mostram o contrário. “Na Argentina, 50% da população é a favor. No Uruguai já é legalizado. E no Chile, depois de Pinochet, nem em caso de estupro, as mulheres podem pensar em aborto”. Luiza finaliza afirmando que os valores médicos não estão imunes aos valores cristãos que estão relacionados com a sacralidade da vida.

Greice Menezes, da Universidade Federal da Bahia, apresentou um estudo realizado em várias capitais do Nordeste, com dados sobre a relação entre mulheres vítimas de aborto, as maternidades e os profissionais de saúde, do estudo “Gestão contemporânea do processo de morrer e índice de qualidade de morte”. De acordo com Greice, boa parte das mulheres que procuram as maternidades públicas correndo graves riscos de morte devido ao aborto são pobres e negras. Observou-se também que a integralidade e universalidade do cuidado às mulheres são desprezados na rede pública. “A solidão é um grande problema identificado em qualquer lugar do Brasil. É a mulher que está sujeita a conviver com o tratamento ‘de mães’, com as crianças nascidas, com um ambiente preparado para a maternidade e não para o aborto”, disse.

No entendimento dos profissionais, ainda se vê “o aborto ligado a mulheres que tem vida sexual irresponsável, com a qual a gravidez é consequência e o aborto previsível. Fato esse que não considera a heterogeneidade dos casos de aborto”. Greice enfatiza que a maior parte dos profissionais de saúde nas maternidade públicas brasileiras não recebem treinamento para lidar com a questão do aborto em seu aspecto mais amplo possível e o distanciamento, segundo ela, é a nova linguagem da discriminação. “Isso torna algo particular à Atenção ao Aborto sob a forma de negligência”, pontuou.

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