Invisíveis? mulheres discutem resistência e cuidado como potência

Este slideshow necessita de JavaScript.

Difícil de acreditar mas foi justamente numa Mesa Redonda intitulada Da invisibilidade à resistência: as mulheres e o cuidado como potência e proteção da vida nos territórios que o debate já aquecido com a fala de quatro fortes mulheres, foi momentaneamente atrapalhado por uma intervenção cultural. A sala estava quase toda ocupada por mulheres, que justamente falavam sobre o lugar do masculino e feminino na produção de conhecimento, quando uma dupla de homens cenopoetas ocuparam o centro da roda de conversa por 20 minutos para uma performance teatral e musical, que, na avaliação de quase todas as participantes, ilustrou o silenciamento das vozes das mulheres.

Mas o incidente se transformou em pauta e foi generosamente incluído na temática da Mesa Redonda coordenada pela pesquisadora Ana Lúcia Pontes, do Grupo Temático de Saúde Indígena da Abrasco e que contou com a participação de Luzinalda Tavares Bezerra; Maria dos Anjos Mendes Gomes e Elisa Urbano Ramos na manhã do último dia do 8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, segunda-feira, 30 de setembro, em João Pessoa.

Acesse aqui o álbum de fotografias desta Mesa Redonda no Flickr da Abrasco

Aquelas experiências femininas – tanto na agricultura, na educação e nos territórios – foram enchendo a sala e transformando o lugar em espaço de poder, mesmo que muitas vezes seja preciso dar dois passos atrás e só um para frente: – “Quando eu era menina tomei conta que não poderia fazer o que realmente queria justamente e apenas por ser menina. Queria ser piloto de avião e descobri que não seria aceita na academia da força aérea; quis ser engenheira aeronáutica e descobri que não podia; então fui pra medicina e pensei em ser neurocirurgiã mas na minha época a residência não aceitava mulheres. Aprendi assim, quando jovem, sobre a questão da invisibilidade e me questionei sobre meu lugar no mundo e quantas mulheres estavam nos lugares onde eu queria estar. Desde então esta é minha busca contínua.” contou Ana Lúcia, abrindo o debate.

Território: nosso corpo, nosso espírito

Sobre a relação de poder, o patriarcado e o feminismo no universo indígena falou Elisa Urbano, representante do povo Pankararu, etnia que vive no Sertão de Pernambuco. Ela resgatou a sua experiência pessoal, convivência com as mulheres parteiras, curandeiras, guardiãs dos ensinamentos sagrados, mulheres indígenas que assumem a função de pajés e caciques nas aldeias: – “Desde minha infância eu vejo com meus olhos e meus ouvidos, e minha curiosidade ficava aguçada quando falavam que mulher é mais fraca e que não existia equidade de gênero nos povos indígenas. Ficava pensando por que me diziam que não existia feminismo indígena, e nesse pensar eu fui escrever para além da minha convivência com essas mulheres, estudei o feminismo, também aquele na Europa dos anos 60 e 70 onde mulheres brancas e ricas já haviam pensado numa luta contra a opressão e me perguntava: e nós? e a mulheres indígenas, negras, camponesas, não vivemos opressão também? Nossa luta contra o patriarcado poderia ser igual, pois o patriarcado é o mesmo em qualquer tempo e espaço: ele é um sistema que oprime homens e mulheres. Diante de muitas observações definimos hoje que o feminismo indígena não é um pensamento, não é uma filosofia ainda, mas são ações em prol de direitos coletivos que refletem e consideram nossa espiritualidade. É o território como nosso corpo e nosso espírito.” resumiu Elisa.

Mulher camponesa em harmonia com a natureza

Luzinalda Tavares Bezerra plantou, através de sua experiência, o conceito da força feminina de enchada na mão que luta contra o machismo e a opressão no campo: – “Sou franzina e muita gente acha que não consigo ter força para produzir a terra, só se enganam.” disse Luzinalda que pratica e ensina na Bahia a permacultura que se gesta na agricultura familiar, que se alia aos conhecimentos ancestrais para sobreviver ao avanço do modelo dominante. Através do seu trabalho na Bahia, Luzinalda vem ensinando mais e mais mulheres a elaborar e manter sistemas agrícolas que promovem energia, moradia e alimentação de forma harmoniosa com o ambiente, criando comunidades sustentáveis. É o feminismo para cuidar da Terra, das Pessoas e repartir os excedentes –  inclusive conhecimento.

Agricultoras e camponesas pouco a pouco estão vencendo as barreiras impostas pela sociedade patriarcal e participam ativamente do processo agroecológico, que elas mesmas ajudam a construir: – “A necessidade de maior participação das mulheres na construção da nossa agricultura na comunidade também se faz na resistência ao agronegócio, ao veneno. Se a gente não se organizar e se a gente não tiver essa questão na nossa cabeça estamos perdidos, o Estado não vai fazer se a gente não pautar, e precisamos ser fortes, pensar mais e sair um pouco da frente da TV – para quem ainda perde tempo com isso: é necessário que a gente estude e não estou falando só de sala de aula mas estudar as coisas que são importantes pra nós.” pediu Luzinalda.

É desde que são pixotinhos

Baiana de nascimento, Maria dos Anjos Mendes Gomes, a Mestre Doci, escolheu a Paraíba para morar e desenvolver projetos sociais através da educação onde ajuda a crianças a sonhar e descobrirem seus valores num trabalho de amorosidade e empoderamento: – “Vamos conversar de verdade por isso peço que desliguem o celular” pediu a professora.

Para falar de educação e feminismo, Maria dos Anjos contou sua trajetória e explicou porque investe tudo o que aprendeu nas crianças: – “Porque os pequenininos são completamente livres e costumam dizer o que sentem!” brincou. Nascida e criada na região de Alagados, em Salvador, mais velha de oito irmãos, ela ainda era menina quando ouviu da mãe que pobre não sonhava, que tinha era que cuidar da casa e cuidar das suas coisas em vez de ficar lendo: – “Sou a filha mais velha da senhora Jacira e do senhor Antonio que depois de cinco filhas mulheres tiveram um menino homem e todas nós viramos empregadas daquela criança… eu era seca que nem vara de pesca e tinha que carregar aquele menino bem nutrido que a gente empanturrava de comida para ele crescer forte, porque afinal era o homem. Pude estudar, depois de muitas arengas, porque aprendi que nós mulheres somos presas a nós mesmas, ninguém nos prende não: somos responsáveis pela nossa prisão, mas muitas de nós ficam com medo de perder o macho… tenham medo é de perder a dignidade.” pediu.

Doci fez mestrado em educação e mandou o diploma pra mãe “foi quando me encontrei livre para voar”, porque você precisa se livre da sua mãe para poder ama-la, não fique a vida inteira agarrada na sua mãe, deixe sua mãe ser gente!” indagou a professora, e reforçou: – “Cuidem mais das crianças, escutem mais, prestem mais atenção aos seus filhos, educar é difícil e é uma tarefa dura, nunca deixem de ensinar seus meninos a cuidar da casa, o serviço de casa precisa ser ensinado como um movimento de cuidado coletivo e que ajudando em casa não vai deixar de ser menino! façam com que o menino pense com a cabeça e não com o sexo e que a menina pense com a cabeça e não com a fragilidade, é isso.”

O episódio que perturbou a Mesa Redonda Da invisibilidade à resistência: as mulheres e o cuidado como potência e proteção da vida nos territórios foi o que despoletou um emocionante ritual ao final do encontro: Inara do Nascimento Tavares, do povo Sateré Mawé, feminista da Articulação de Mulheres Brasileiras e professora do Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena da Universidade Federal de Roraima pediu que todas e todos que ali estavam se abraçassem num roda. Depois que se olhassem com calma e os olhos foram marejando… e naquela cumplicidade Inara beijou a pessoa ao seu lado que beijou a pessoa ao seu lado e o beijo foi passando e junto com ele a roda girou e o manto da invisibilidade feminina se rasgou mais um pouquinho.

Comments

comments

Deixe uma resposta