Trabalho coletivo como instrumento de fortalecimento do conhecimento

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O brilho dos olhares e os sorrisos de satisfação misturaram-se com o cansaço explícito nos rostos e a certeza de terem participado em um dos principais eventos científicos do ano no setor saúde. A plenária de encerramento do 8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde – 8º CBCSHS – manteve o alto quórum que marcou o evento ao longo dos quatro dias, de 26 ao 30 de setembro. A sessão reuniu as propostas dos grupos de trabalho do evento; aprovou quatro moções; anunciou as vencedoras e vencedores do Prêmio Cecília Minayo e a nova composição da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde.

Para chacoalhar o cansaço, Oris Day e Murilo Marcos, médico e educador popular de Florianópolis, conduziram alongamentos e cantaram para movimentar as pessoas.

Finda a última folia, o presidente do Congresso, Martinho Silva, iniciou a sessão destacando o belo e pujante esforço dos grupos de trabalho em promover encontros entre pesquisadores de todo o país, construir propostas em torno do conceito e das ideias debatidas sobre o bem viver, tanto no SUS como nas universidades e no campo científico da Abrasco.

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Sob coordenação de Rui Harayama, docente da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), os coordenadores de GT presentes foram chamados ao palco para apresentarem um rápido resumo das atividades e as propostas debatidas. Dos 29 GTs que compuseram a programação final, 17 coordenadores estiveram presentes à sessão final e leram as contribuições de seus respectivos grupos. Uma boa parcela demonstrou interesse, inclusive, de se constituir como grupos temáticos no interior da Associação, fortalecendo e ampliando esse espaço-campo que é a Abrasco. A partir das contribuições, a nova Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde irá elaborar um documento-guia para iniciar os preparativos da nona edição, ainda sem sede definida. Os grupos que ainda não encaminharam suas respectivas produções devem enviar para o e-mail rui.harayama@gmail.com

Moções: Na sequência, foram apresentadas quatro moções à plenária final. Marcilane da Silva Santos leu a Carta da Tenda Paulo Freire, que destaca este espaço como uma forma de aproximação de diálogos sobre temas importantes para a sociedade, a partir dos princípios da amorosidade, problematização, construção compartilhada de saberes e práticas por uma realidade que busque por justiça social em vista da emancipação dos sujeitos individuais e coletivos.

As jovens sanitaristas Michele Souza, Luanda Lima e Fernanda Martins leram uma moção de apelo à Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Abrasco para que a mesma amplie a discussão acerca da atuação dos profissionais de ciências humanas e sociais no campo da saúde coletiva. A situação das universidades públicas e o movimento grevista iniciado por estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foram o tema de outra moção encaminhada por escrito e lida em plenária, todas aprovadas por aclamação.

Houve ainda duas proposições, aprovadas sob referendo, para análise posterior da direção da Abrasco, de acordo com o teor dado à redação. José Carlos Trindade, da Fiocruz Rio de Janeiro, expôs as mudanças que a operadora Amil vem fazendo nas tabelas de preços e serviços de órteses e próteses de seus assegurados. Já o Palhaço AL, vivido por Aldenildo Araujo Costeira, professor do DPS/UFPB e um dos organizadores do Ato Primavera na Praça da Paz, sugeriu a redação de uma moção de apoio aos jovens coletivos realizadores das sessões de hip hop daquele espaço, nomeado “Batalha da Paz”, devido à receptividade para a realização do ato e como forma de agradecimento e consolidação dessa relação entre universidade e movimentos autônomos; entre ciência e cultura.

Premiações: Coube a Luis Eduardo Batista, responsável pelo comitê julgador da Comissão Científica, explicar a dinâmica de avaliação do Prêmio Cecília Minayo, que chegou ao seu segundo ano gerando maior expectativa entre os congressistas.

Após uma primeira peneira realizada no processo de submissão dos resumos e montagem dos GTs para o 8º CBCSHS, os coordenadores avaliaram não apenas a apresentação dos trabalhos, bem como a participação de indicados e indicadas ao longo dos três dias de trabalhos em grupo. Os melhores classificados foram reavaliados em conjunto pelo comitê julgador. Ao final foi escolhido um trabalho para o prêmio e de 3 a 4 menções honrosas para cada modalidade – Relatos de Pesquisa; Relatos de Experiência; e Ampliando Linguagem.

A leitura dos títulos e das autorias feita pelo secretário-executivo Thiago Barreto aumentava o suspense na Tenda, que prestigiou com salva de palmas a entrega dos prêmios em livros a Fernanda do Nascimento Martins; Rafaela Rocha; e Patrícia Rocha de Figueiredo. Além das obras cedidas pela Abrasco Livros e Ver-POP SUS, cada autor selecionado ganhará também uma anuidade da Abrasco para o próximo congresso de sua preferência. Clique aqui e veja todos os vencedores.

Para dizer adeus: “Apenas com a possibilidade de trabalhar junto, com igualdade nas diferenças, sabendo que no caminho haverão conflitos e obstáculos a dialogar e superar, que a gente vai construir o futuro” ressaltou Pedro Cruz, agradecendo o “luxo” de receber tantos pesquisadores e militantes da saúde realmente dedicados à produção do conhecimento e com o fortalecimento do sistema de saúde brasileiro. “Foi encantador para a gente da UFPB ter convivido e aprendido muito com vocês”.

O presidente da Comissão Organizadora Local agradeceu também o luxo de ter podido coordenar um grupo de jovens estudantes e docentes que construiu o 8º CBCSHS nos seus mínimos detalhes, num trabalho  de três anos de dedicação. “Se não fosse o esforço, a alegria do trabalho dado e a determinação, criticidade e protagonismo da nossa Comissão Organizadora Local nada disso teria acontecido” completou Pedro, chamando os integrantes para juntos receberem uma merecida salva de palmas do plenário.

Ao anunciar a nova conformação da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em saúde da Abrasco, Martinho Silva resgatou um pequeno histórico desse organismo e ressaltou o esforço de fazer valer caráter nacional e pluri-regional da Comissão como forma de superar as iniquidades em Ciência e Tecnologia dentro do país e contra a concentração de recursos no eixo Sudeste-Sul.

Em consulta, os associados institucionais indicaram seus representantes, totalizando 24 de docentes e/ou pesquisadores com representações das cinco regiões brasileiras. Os nomes foram ratificados na reunião da Comissão, realizada na manhã do dia 27, no pré-congresso. Foi decidido também pela garantia da mesma representatividade pluri-regional no núcleo de coordenação, que passa a funcionar como um colegiado.

“Fortalecendo essa luta, vamos manter esse núcleo pluri-regional e adotar um modelo colegiado, no qual não se opera com coordenadores e vice-coordenadores, mas que tenha no centro o trabalho em equipe e em movimento com o intuito de fortalecer as Ciências Sociais e Humanas” disse Martinho, anunciando os novos membros: Rui Harayama, da UFOPA; Mônica Nunes, da UFBA; Luiz Leão, da UFMT; Suely Deslandes, do IFF/Fiocruz; e Marta Verdi, da UFRGS.

Os novos coordenadores presentes falaram rápidas palavras sobre alegrias e responsabilidades. “Me sinto honrada por essa indicação. Tive a felicidade de compor esse núcleo atual, e devo dizer que é um espaço de grande aprendizado, com um fazer coletivo e democrático, conectado com a conjuntura nacional. Estou bastante animada em dar prosseguimento” ressaltou Mônica.

“Fico feliz com essa costura em garantir a presença da região norte e das pessoas que trabalham diretamente na saúde coletiva e formada nas ciências sociais e humanas. As populações do norte, sempre muito utilizadas subjugadas apenas como objeto de estudo, possam ter sua vez e voz e, como viemos ressaltando na saúde coletiva, que possam estar vinculadas a uma visão de pesquisa militante implicada com os atores sociais nos territórios. Espero poder ajudar nessa construção” confirmou Rui.

Antes de entrar nas saudações, o secretário da Abrasco não escondeu uma difícil situação vivida no pré-congresso que motivou prejuízos para uma mãe congressista que precisou ir com seu filho. As providências foram tomadas, e Thiago Barreto fez questão de ressaltar o papel da Associação em se implicar com a situação. “O que fica de lição é reafirmar o compromisso da Abrasco com o direito da mãe e das crianças em estar nos espaços congressuais e acadêmicos, propiciando boas condições para que isso aconteça” disse ele, ressaltando que a Associação tem sua maior base feminina e para além disto, se constrói cada vez mais como uma entidade feminista.

Thiago agradeceu ainda a parceria e aprendizado com as comissões organizadoras local e nacional, que com ousadia e coragem fizeram escolhas que se comprovaram certeiras. Agradeceu ainda a unidade demonstrada pela equipe da Secretaria Executiva e Abrasco Livros e deu boas-vindas a Viviane Rosa, secretária-executiva adjunta em seu primeiro evento à frente da Associação.

Em suas palavras finais, o presidente do Congresso ressaltou o lema que movimentou e marcou todo o evento bem como a própria dinâmica da Comissão. “Estou falando dessa singularidade e de algo que valorizamos: o fato de não precisar ser igual a todo mundo, embora nossa luta seja pela igualdade, uma igualdade onde caiba a diferença”. Destacou ainda a criação de critérios específicos para a categoria de relatos de experiência como fruto desse trabalho coletivo e diverso. “Para tornar pensamento e ações coerentes e passar a fazer o que a gente acredita dá muito trabalho e não dá para fazer sozinho. Por isso agradeço a todos que fizeram esse congresso e todos vocês que vieram e fizeram esse congresso possível com mais de 2 mil pessoas. Meu muito obrigado” disse Martinho, destacando por último a ousadia da Comissão Local em construir o ato Primavera de luta pela Paz. “Fizemos um ato político, científico e artístico e, para esse momento que fizemos, a gente precisa mesmo é dessa união” encerrou.

Em nome da diretoria da Abrasco e da presidente Gulnar, Tatiana Gerhardt ressaltou o 8º CBCSHS como um espaço potente, tanto de encontros e partilhas de saberes, afetos e amorosidades como também de desencontros que geram aprendizado e posicionamentos e possibilidades de reinvenção.

“Saio com uma imensa alegria e felicidade pelo acolhimento dessa universidade em um momento tão difícil. Agradeço à diretoria e a todas equipes da Abrasco e comissões que fizeram esse evento acontecer e principalmente a vocês aqui presentes e que somaram mais de 2 mil pessoas nesses 5 dias. Essa construção compartilhada precisa estar presente na agenda da Abrasco hoje e sempre. Precisamos continuar promovendo esses encontros cheios de afetos, de diferenças, e também de amorosidade. Por isso convidamos: venham para a Abrasco; façam parte da Associação em todas as suas atividades; nos encontrem nos próximos eventos, mas não somente neles. Fica aqui uma gratidão enorme e que a gente possa se encontrar em breve”.

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