Abertura do 7ºCBCSHS tem a marca da reinvenção


Reinventar a ação em saúde e os paradigmas epistemológicos. Reinventar as formas de representatividade e a nós mesmos. Essa foi a mensagem central da cerimônia de abertura do 7º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (7ºCBCSHS), realizado na noite de 09 de outubro, no Teatro Universitário, no campus Cuiabá da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Mais de 400 pessoas participaram da ativi dade, que reuniu pensamento crítico, mas também leveza, felicidade e beleza local.

Um time de autoridades compôs a mesa da solenidade e, junto ao público, foi brindado com a execução do hino do estado do Mato Grosso por Billy Espíndola e sua viola de coxo, após a execução do hino nacional.

Tatiana Engel Gerhardt, presidente do Congresso foi a primeira oradora da noite, agradecendo a acolhida cuiabana e da UFMT, “uma universidade pública, gratuita e de qualidade, lócus central da liberdade de pensamento e da pluralidade de ideias e que se constitui, mais do que nunca, espaço de resistência e de enfrentamento de um Estado de exceção que nos retira direitos, recursos e liberdade de ser e de existir”.

A presidente fez uma leitura política do momento vivido no Brasil, no qual a expansão do pluralismo político-ideológico trouxe junto marcas de hostilidade, intolerância e fragilidade das relações sociais. “Esse cenário de contrastes apresenta novos contornos e desafios éticos, teóricos e práticos às Ciências Sociais e Humanas no campo da Saúde Coletiva para interpretar, compreender e agir criticamente, evocando o reconhecimento ético-moral dos direitos emancipatórios pautado pela alteridade dos sujeitos.

Para ela e a Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Abrasco, responsável pela condução científica do Congresso, adotar tal perspectiva implica em discutir novas formas de produção de produção do conhecimento articuladas às lutas dos movimentos sociais. “Reconhece-se assim a necessidade do campo de considerar e se apropriar da multiplicidade dos gêneros discursivos nas suas práticas de pesquisa, de produzir outros movimento possibilitando igualmente uma melhor devolução à sociedade daquilo que a ciência produz”, disse Tatiana, que finalizou destacando o trabalho incansável dos coordenadores dos 32 grupos de trabalho abertos para este sétimo congresso, “buscando cada vez mais a interação e as inter-relações entre grupos de pesquisa, instituições e regiões do país”. Acesse a fala de Tatiana Gehardt.

Na sequência, Reni Barsaglini falou em nome da Comissão Organizadora local, que agradeceu a confiança depositada tanto pela direção da Abrasco como pelos colegas da Comissão dado do desafio do contexto. “Foram meses dedicados à produção deste evento, que ressaltam as parcerias internas e externas por nós alcançadas. A proposta do congresso foi abraçada por todo o Instituto de Saúde Coletiva, contando com o envolvimento de outras áreas desse saber disciplinar, bem como professores aposentados do Instituto, o que só reforça seu papel de interlocução, de resistência e de comprometimento ético e político. Sejam bem-vindos ao Congresso”.

Secretária adjunta de políticas e regionalização da Secretaria de Saúde do Estado (SES-MT), Maria Salete Ribeiro, falou em nome da gestão. Ela agradeceu à Abrasco pela oportunidade de pensar a saúde em suas dimensões locais. “O estado do Mato Grosso e a SES ainda patinam para assumir seu papel de coordenar as políticas de saúde. Ainda temos muita dificuldade, mas já temos rumo. Nesta gestão, passamos por três secretários, mas acredito que entendemos que nosso trabalho é dar continuidade e assegurar.

Salete lembrou que, assim como o atual momento, o próprio Sistema Único de Saúde também nasceu de um momento de enfrentamento. “Vivemos um cenário de reinvenção, uma necessidade de buscar nossa humanidade. Vemos a precarização das relações e a força do capitalismo que desmonta que é o direito do cidadão brasileiro. Vemos como é difícil acreditar na integralidade do SUS, mas eventos como este são um estímulo para aprender, para ensinar e para acreditarmos no SUS. Que esse congresso nos traga muita energia para encarar a luta, que é muito grande”, disse a secretaria. Além de Salete, falaram também pelos poderes locais Diógenes Marcondes, representando o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Estado (Cosems/MT); e Lívia Mondim, coordenadora de pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapemat). Cumpuseram também a mesa Suely Correa de Oliveira, da Associação Nacional de Educação Popular em Saúde do Mato Grosso; José Paulo Mota Traven, secretário adjunto municipal de Cultura, Esporte e Turismo, e Stela Maris Luna, representante da Escola de Saúde Pública do Mato Grosso.

Gisela Bruken, diretora do ISC/UFMT, representou a reitoria e destacou o crescimento da UFMT nos últimos 10 anos. “Passamos de 20 programas de pós-graduação para 40, de três cursos de doutorado para 16. Reinauguramos o teatro no ano passado para que tivéssemos condições para fazer este e outros eventos. Agradecemos a vocês que aceitaram o desafio de vir para o nosso Estado. Que esse seja o primeiro de vários eventos da Saúde Coletiva no Mato Grosso.

A direção da Organização Pan-americana de Saúde no Brasil também compôs a mesa. Joaquim Molina saudou o público reforçando o sentimento de felicidade em participar junto com a Abrasco na organização e no apoio ao Congresso. “São relações de trabalho que engrandecem o trabalho da OPAS. A Abrasco é uma fonte de conhecimento e inspiração por jogar seu aporte acadêmico para a reflexão dos sistemas de saúde. Temos no Brasil nosso maior escritório, servindo como um centro das ideias força que movem a saúde neste e nos demais países. Em tempos complexos, nossa equipe de consultores irá participar do evento e reiterar pelo que acreditamos e trabalhamos que são o fortalecimento de sistemas públicos, universais e gratuitos de saúde”.

Gastão Wagner, presidente da Abrasco, começou sua participação falando do avanço de posições conservadores e cultura da violência em nossa sociedade, comentando uma pesquisa informal que vem realizando junto aos usuários da Atenção Básica na cidade de Campinas (SP). “Tenho perguntado por que tem tanta violência e a maioria das respostas de vários problemas gravíssimos tem sido uma explicação conservadora e elitista, vinda do povo, mas contra o próprio povo. Isso nos faz pensar se estamos de fato produzindo conhecimento reflexivo e conseguindo compartilhar com a sociedade”. Para ele, a Saúde Coletiva cresceu ao criar um espaço contínuo de produção de ciência e de conhecimento entre pares. “O desafio é fazer uma difusão ainda maior, produzindo um agir comunicativo maior do que somente entre docentes e pesquisadores”.

Ao abordar os malefícios que a PEC 241 pode causar à saúde e a perspectiva da asfixia na área social, Gastão ressaltou que cabe a todos aqueles que acreditam na humanidade encarar a discussão da autonomia do agir em sociedade. “Há um ano, desde a posse da atual diretoria temos discutido a necessidade de ter autonomia em relação às religiões, ao Estado, aos governos e à dinâmica do mercado. Nosso compromisso é com as pessoas, com a saúde e com o meio ambiente”, disse ele articulando estas ideias ao próprio quadro do 7º CBCSHS, que não recebeu apoio oficial do Ministério da Saúde, mas que conseguiu se reinventar. “Nesses momentos, além de sofrer, a gente se redescobre, se conhece, é levado a buscar em nós mesmo o arsenal ético e político. A gente faz escolhas. A parceria com a OPAS se incrementou e agora ela passa a fazer a co-gestão dos eventos futuros da Abrasco, ampliando, mesmo em eventos nacionais, nossa ligação com América do Sul e Latina”.

Ele abordou também o papel das Ciências Sociais e Humanas em Saúde na Saúde Coletiva. “Foram as Ciências Sociais e Humanas que fizeram a ruptura de paradigmas com a Saúde Pública nos anos 1960 e 1970. A grande mudança que permitiu passarmos da Saúde Pública para a Saúde Coletiva foi essa contribuição junto com a interdisciplinaridade, numa ação de pensamento que contaminou as demais áreas. Vocês trouxeram o debate das identidades, do contraditório para áreas como a vigilância em saúde, a vigilância ambiental e a epidemiologia, e até a política”, brincou Gastão, que aproveitou e prestou uma homenagem a Ana Maria Canesqui, pensadora seminal das Ciências Sociais e sua orientadora de doutorado.

Ao final, ele deixou o convite para se pensar o papel da representação social e o próprio funcionamento da Abrasco. “Grupo Temático não tem dono, os coordenadores dos GTs e Comissões têm de renovar. O desafio é pensar como a Abrasco pode ter posição unitária e conviver com o contraditório. A gente faz o apelo que as instituições não indiquem integrantes das Comissões sem a discussão com os docentes. O desafio é sair das nossas certezas, dos fundamentalismos de correntes. Isso nos deixa separados e com dificuldade de pensar. Não há metodologias ideais, temos de fazer parceira, ter capacidade de interlocução e de intervenção na sociedade. Temos de reconstruir nossa sociabilidade como pessoas críticas. A crise de representatividade não é só da classe política, mas também nossa. A defesa do SUS depende do modo de reinventar nossas relações. Vale a pena, temos um monte de coisa para fazer. Não somos exceção. O que acontece é que estamos desorganizados. Nosso papel é tentar apoiar e ajudar, e lembrar que a representação não é suficiente, e que é necessário sim nosso protagonismo”.

Para encerrar com arte e beleza, o grupo Flor Ribeirinha apresentou a cultura cuiabana nos embalos das danças do Siriri e do Sururu, mostrando mais uma vez que Saúde Coletiva, protagonismo popular e social quando juntos se fortalecem e se alimentam, produzindo novas formas de agir na saúde e em sociedade.

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