Atenção, Educação e Gestão: Produções da Rede PROFSAÚDE – Volume 2

Na maioria das vezes o prefácio de uma coletânea traz informações sobre a obra realizada, seu contexto, seus autores e um convite à leitura. Para a obra aqui apresentada na forma de um e-book, acreditamos que o prefácio deva inicialmente informar e convidar os leitores a uma reflexão sobre a intencionalidade de sua produção, pois o contexto, os manuscritos e seus autores mostram-se como efeitos ou produtos (se quisermos uma linguagem mais objetiva) de um movimento do Mestrado Profissional em Saúde da Família (PROFSAÚDE) no sentido de registrar a percepção, o olhar e a compreensão de docentes, discentes, profissionais e usuários sobre a dinâmica dos territórios de Atenção Primária/Atenção Básica de Saúde que o PROFSAÚDE, como um dispositivo de enunciação vai revelando em sua trajetória.

Não é por acaso que a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) — entidade científica e política que agrega as áreas que constituem o campo da Saúde Coletiva no país — é a entidade proponente de um curso com objetivo de “oferecer aos profissionais atuantes na Atenção Básica em Saúde (ABS) formação articulada com sua prática, fortalecendo conhecimentos relacionados à atenção, educação e gestão de forma a prepará-los para que atuem como docentes nas graduações e pós-graduações da área de saúde, bem como preceptores na ESF e nas residências multiprofissionais e médicas, com ênfase naquelas da área de saúde coletiva”.

A proposição do PROFSAÚDE revela o pensamento que a saúde coletiva não pode prescindir de profissionais ativos, críticos, criativos e resolutivos que reflitam sobre sua prática, superando limites disciplinares, corporativos e institucionais na perspectiva de construir interfaces que possibilitem a compreensão da amplitude das relações entre saúde, doença e cuidado.

É intencional ter uma rede de 22 instituições de ensino liderada pela FIOCRUZ, em que cada ponto dessa rede contribui com suas singularidades e potências para que o PROFSAÚDE seja desenvolvido como uma rede dinâmica em que emergem, a cada edição, novos problemas, conhecimentos e intervenções, aguçando a curiosidade epistemológica, aprimorando tecnologias e construindo compromissos com a responsabilidade social dos sujeitos envolvidos nos processos de formação em saúde, das instituições formadoras e da gestão da rede de serviços.

Para integrar teoria e prática, os territórios de ABS são considerados espaços de produção e circulação de saberes, práticas e afetos. Partindo daí, as equipes de saúde da família atuam como autores de suas ações, de sua história e de modo crítico e criando alternativas compartilhadas para superar os desafios que encontram a cada dia.

Considerando-se o PROFSAÚDE uma intervenção pedagógica no sentido de contribuir para a superação do caráter prescritivo que circunda a relação entre o usuário, a Unidade de Saúde e os profissionais, é imprescindível que se registrem as invenções, inovações e tecnologias em diálogo a fim de que tal encontro se transforme em momento acolhedor, de troca de saberes. O registro dessa trajetória é a essência do e-book.

Dessa forma a articulação ensino/pesquisa/serviço deixa de ser algo abstrato e distante e se torna visível nas “Rodas de Conversa” — proposta metodológica de construção de espaços comunitários na atenção primária à saúde — e nos encontros com os movimentos populares do campo e das águas — percepções do acesso à estratégia saúde da família. Processos que ultrapassam as definições normativas presentes nas organizações de saúde e buscam a viabilidade de políticas indutoras de mudanças na formação refletindo sobre a integração ensino-serviço nas unidades saúde da família em um município do sul do Brasil e identificando fortalezas e desafios ao considerar a atenção primária como cenário de prática de escola médica no Brasil — avaliação da integração ensino-serviço.

Outra intencionalidade que o PROFSAÚDE assume é ter como egresso “um profissional comprometido com a aprendizagem ao longo da vida, que incorporará criticamente as políticas públicas de saúde como referenciais em sua atuação, com competência para produzir conhecimento a partir da prática no serviço e utilizá-lo para transformar a realidade”.

Considerando a ação dos determinantes sociais sobre os processos de adoecimento e sofrimento da população e o sentido ampliado de saúde é imperativo que as necessidades e a voz dos usuários sejam ouvidas e reconhecidas como problemas que demandam respostas institucionais. Escuta que pode ser advinda desde os sistemas de informação em saúde — a qualidade da informação na gestão das equipes de saúde à compreensão das Buscas pelo cuidado: o itinerário terapêutico de transexuais no município de Niterói/RJ.

A ABS como espaço de produção do cuidado tem nos profissionais de saúde sujeitos que protagonizam as práticas de saúde que são constantemente modificadas e traduzidas ao contexto de sua realização. Para diminuir a distância entre a ação protocolar normatizada e sua materialização existe a vivência e a experiência do profissional que orienta o ato de cuidar.

Movimentando-se em território dinâmico, articulado, de entrelaces de saberes é importante indagar. Sobre a medicina popular: o que pensam os médicos da atenção básica? E, como protagonistas do fazer, ressalta-se a participação do médico especialista na expansão da atenção primária à saúde no Distrito Federal e problematizar a segurança do paciente: percepção dos profissionais de saúde atuantes na atenção primária.

O cuidado é uma ação humana que acontece entre sujeitos mediados por conhecimento, culturas, tecnologias e diálogo, mas também compreende uma ação que se fundamenta no conhecimento sobre o problema, se materializa por meio de tecnologias e se efetiva no diálogo e na interação com o outro, ampliando espaços para além dos muros da unidade de saúde até o cuidado compartilhado em casa. Competências relacionais e atenção domiciliar segundo profissionais de saúde e repensando novas técnicas relacionadas à assistência aos usuários portadores de diabetes de unidades básicas de saúde em Coari, Amazonas (Brasil) e no papel da rede de Atenção Básica no Sistema único de Saúde ao se debruçar sobre hipertensão arterial e diabetes mellitus: avaliação de serviços de atenção primária no interior paulista.

Finalmente a coletânea ainda nos traz experiências inovadoras ao sistematizar e analisar o trabalho em um grupo de promoção da saúde na atenção primária à saúde: repercussões a partir de pesquisa-ação, levantando questões atualizadas e pertinentes sobre a direcionalidade da formação médica, contextualizando a medicina no meio da floresta amazônica (desafios da implantação do curso médico em Coari, Amazonas) e nos instiga a reatualizar as características da avaliação apontando possibilidades que as práticas avaliativas sejam incorporadas e compreendidas como processos de emancipação e empoderamento na autoavaliação da atenção primária à saúde em um município de pequeno porte do sul do Brasil atos de saúde.

Eis a obra! O registro compartilhado do movimento de sujeitos que transitam nos espaços da formação, da pesquisa e dos serviços com seus acúmulos, suas potencialidades, seus saberes e afetos. Vamos percorrer esta trilha!

Gulnar Azevedo e Silva
José Ivo dos Santos Pedrosa

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