O que significa a imagem negativa do SUS na mídia?

O GT de Comunicação e Saúde da Abrasco comenta a questão
Não é de hoje que nós, expectadores, leitores, público da mídia de massa brasileira, nos deparamos com reportagens e notícias cujos enfoques apresentam o Sistema Único de Saúde (o SUS) como o vilão da Saúde Pública no Brasil. É comum, inclusive, observarmos, em consonância com o discurso da mídia geral, a população brasileira redimensionar o enfoque negativo apresentado, talvez também por ter vivido uma experiência ruim no SUS ou mesmo porque está sempre em contato com essa agenda jornalística de busca por uma visão negativa do serviço de saúde pública.
A imagem negativa do SUS na mídia é tão forte, que poderíamos partir do pressuposto de que poucos lembrariam o dia em que a saúde pública brasileira foi apresentada de forma positiva. A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) preocupada com essa demanda, por meio do GT de Comunicação e Saúde, vem a público dar suas considerações sobre a reportagem “Médicos são suspeitos de esquema que cobrou tratamento de mortos”, veiculada pela Globo, no Fantástico do dia 5 de maio deste ano. É possível que muitos se lembrem, até porque como afirma Wilma Madeira (USP), coordenadora do GT, realizando uma rápida busca na Internet com o título “Médicos são suspeitos de esquema que cobrou tratamento de mortos”, é possível constatar que após veicular a notícia, em poucas horas ela foi copiada, linkada, replicada, reduzida e reproduzida mais de 330 vezes.
Segundo Wilma, dos sites que ajudaram a divulgar a matéria veiculada, nenhum deles propôs debate, mais investigação ou aprofundamento sobre o tema. “Na página do Fantástico, das cinco principais matérias publicadas, todas tratam de problemas, tragédias e corrupção, três delas são sobre saúde. Essa é a dinâmica de boa parte da comunicação no Brasil e reflete seu contexto no campo da Saúde Coletiva no país: existem notícias quentes, que ‘vendem mais’ e notícias frias, notícias ‘de gaveta’ para serem usadas esporadicamente quando faltar assunto na pauta”, explica. Wilma ressalta que “saúde, saúde pública e seus problemas e tragédias pertencem à categoria das notícias quentes. Sistema Único de Saúde, sua gestão participativa e casos exemplares de atendimento público são matérias de baixo interesse midiático”.
Outro ponto enfatizado por Wilma é que quando avaliamos a estatística de interesse, por meio do uso de termos pesquisados na Internet, percebe-se que hoje temas como “sistema único de saúde” + “bem avaliado” representam menos que 10% do total de interesse que despertavam em 2004. “Essas são rápidas visitas a fatos de fácil constatação. Existem observatórios de mídia e pesquisas acadêmicas que evidenciam melhor, e de forma mais qualificada, essa situação, porém todos são reflexos de uma mesma realidade – complexa recorrente e intrigante – que nos expõe questões para a reflexão: Como promover maior debate social sobre tais temas? Como fortalecer processos democráticos? Como produzir maior compreensão e maior implicação da população para a transformação do SUS? Em qual fundo de gaveta estão guardadas as boas práticas de gestão e atenção do SUS?” -, propõe o debate.
Essas questões são foco de interesse prioritários da Abrasco, que está discutindo no dia 27 de maio, durante o 1º Seminário Pré-congresso de Política, Planejamento e Gestão em Saúde, os temas “O desafio político da legitimação social do SUS”, “O modelo de cuidados: como atender às necessidades de saúde de todos?”, “O modelo de gestão e os trabalhadores da saúde”, “O financiamento do SUS”, “A mercantilização/financeirização da Saúde”, “O padrão tecnológico e o complexo industrial da saúde” e “A saúde como fator de desenvolvimento”.
Por Flaviano Quaresma

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