Resumo
RESUMO
Tendo em vista os altos custos hospitalares dos idosos, o presente estudo teve como objetivo comparar as sete maiores freqüências de morbidade hospitalar em idosos, no ano de 2005 com o ano de 1994, através dos dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/MS). Metodologia: Estudo de avaliação das informações obtidas na base de dados do DataSUS do Ministério da Saúde sobre a morbidade hospitalar das internações em idosos, no ano de 2005 e de 1994. Adicionalmente, procedeu-se ao cálculo das taxas padrão e ajustadas, pelo método direto de padronização com o uso do programa Epidat 3.1. Principais resultados: As doenças do aparelho circulatório se mantiveram predominantes em 2005 (28%) e em 1994 (32%), com uma redução de 4% entre estas datas; houve o aumento em dobro das neoplasias de 1994 (4%) para 2005 (8%), e as doenças infecciosas e parasitárias apresentaram a manutenção basicamente do mesmo percentual de 7%, em 1994 e em 2005. Pode-se concluir que no Brasil, a morbidade hospitalar em idosos mantém o predomínio das doenças do aparelho circulatório, ao mesmo tempo em que se observa a não-redução das doenças infecciosas e parasitárias; e ainda sinaliza-se o aumento recente e acentuado das neoplasias. Recomenda-se que os estudos de comparações entre períodos sejam umas das ferramentas de uso na gestão.
Palavras-chave: morbidade, idoso, saúde pública.
Abstract
ABSTRACT
In view of seniors' high hospital costs, the present study aims at comparing the seven leading frequencies of hospital morbidity affecting seniors in 2005 and 1994, through the data on the Hospital Information System (SIH/MS). Methodology: Evaluation of information obtained from the Ministry of Health DataSUS database on seniors’ morbidity upon internments, and calculation of standard rates adjusted by the standardization direct method with the Epidat 3.1. program. Main results: The diseases of the circulatory system predominated in 2005 (28%) and in 1994 (32%), with a reduction by 4% between those years; neoplasias were twice higher in 2005 (8%) as compared to 1994 (4%); infectious and parasitic diseases remained stable at 7%, in 1994 and 2005. In conclusion, hospital morbidity affecting seniors in Brazil is predominantly related to diseases of the circulatory system; at the same time, one can observe both the non-reduction of infectious and parasitic diseases, and the signaling of a recent increase in neoplasias. Comparative studies like this one are recommended as a useful tool in hospital management.
Keywords: morbidity, senior, public health.
INTRODUÇÃO
O aumento da população idosa é um fenômeno observado em diversos países, inclusive no Brasil. O atual perfil epidemiológico das doenças crônicas que acometem essa faixa da população leva conseqüentemente ao aumento da improdutividade dos indivíduos e ao aumento dos custos governamentais. Porém, em se tratando de saúde publica, o Brasil ainda tem como agravante os números elevados do perfil epidemiológico anterior (infecto-contagiosas) somados a doenças emergentes.
A informação sobre a comparação de taxas de morbidades hospitalares nos anos de 1994 e 2005, permite uma melhor visibilidade do quadro de morbidade atual dos idosos no País. Assim sendo, o presente trabalho poderá fornecer subsídios que auxiliarão o planejamento das prioridades e escolhas nas atenções em saúde pública voltadas para os idosos.
DESENVOLVIMENTO
Fundamentação teórica
No Brasil, são consideradas idosas as pessoas com mais de 60 anos. Esta idade também é usada como delimitador pela OMS - Organização Mundial de Saúde [1]. De acordo com o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [2], o número de idosos em nosso país é um dos maiores do mundo - 14,5 milhões de pessoas com mais de 60 anos, em 2000 e deverá multiplicar-se por cinco até 2025, assumindo-se os pressupostos de grandes pesquisadores [3-6].
A transição epidemiológica apresenta um quadro de morbimortalidade onde as doenças cardiovasculares representam atualmente mais de 40% das mortes registradas no País [2]. O Brasil apresenta a segunda maior taxa de mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC) no mundo, e esta é a maior causa de morte para os brasileiros acima de 65 anos [7]. Pesquisa realizada por Karsch [8] apontou que o Brasil apresenta a segunda maior taxa de mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC) no mundo, e que o AVC constitui a maior causa de morte para homens e mulheres brasileiros acima de 65 anos.
Segundo Camarano [9], as duas causas mais freqüentes de internação, em ambos os sexos, são a insuficiência cardíaca e coronariana e as doenças pulmonares, que se revezam como a primeira e segunda causas. O AVC agudo, a crise hipertensiva, as enteroinfecções, a desnutrição, desidratação e anemia estão sempre presentes como causas intermediárias. Porém, os acometimentos do envelhecimento não devem ser explicados por uma única doença.
O idoso consome mais serviços de saúde, as internações hospitalares são mais freqüentes e o tempo de ocupação do leito é maior do que o de outras faixas etárias. Em geral, as doenças dos idosos perduram por vários anos e exigem acompanhamento médico e de equipes multidisciplinares permanentes, além de intervenções contínuas [6].
Carvalho-Filho [10], evidenciou que a iatrogenia é freqüente em pacientes idosos hospitalizados, podendo determinar manifestações graves, e mesmo fatais; sendo encontrada também nas Instituições de Longa Permanência, cujo perfil atual é de uma população cada vez mais idosa, mais doente e mais funcionalmente dependente. Nos hospitais pode-se encontrar eventos adversos em cerca de 4% dos pacientes internados. Um estudo hospitalar citado por Rothschild, Bates e Leape [11] demonstrou que a taxa de complicações hospitalares para os idosos é cerca de 1,5 vez maior que os do grupo etário mais jovem.
Os idosos, as crianças e os portadores de deficiência são as maiores vítimas de maus tratos e negligência nos cuidados, cujas principais conseqüências são as quedas, as contenções físicas, as úlceras de decúbito, as infecções hospitalares e as complica¬ções perioperatórias [12]. Nos idosos, a incidência de quedas é de cerca de 32% ao ano, sendo que 24% resultam em injúrias que requerem atendimento médico. Em idosos institucionalizados, a incidência chega a 50% ao ano. Desses pacien¬tes, cerca de 25% morrem dentro de um ano, 15% são institucionalizados e 60% nunca recuperam o nível funcional prévio [11]. Os estudos mostram que idosos que já caíram anteriormente têm de 4 a 20 vezes mais chance de sofrer uma fratura [13]. A adoção de grades protetoras nos leitos, o bloqueio de acesso a escadas e o uso de pisos antiderrapantes têm reduzido bastante a incidência de quedas. Aqueles que sofrem quedas apresentam um grande declínio funcional nas atividades de vida diária e nas atividades sociais, com aumento do risco de institucionalização [14].
Os idosos são particularmente susceptíveis a infecções nosocomiais, princi¬palmente respiratórias, urinárias e de pele. Um estudo retrospectivo de 1200 infec¬ções nosocomiais [15] encontrou um risco dez vezes maior entre o grupo etário de 70 a 79 anos do que entre o grupo de 40 a 49 anos. Em instituições asilares, o problema pode chegar a proporções ainda maiores, pela fragilidade dos residentes e a freqüente superIotação dos quartos, nem sempre arejados. Aproximadamente 5% dos pacientes hospitalizados adquirem úlceras de decúbito durante a internação [11].
Nas instituições de longa perma¬nência, um estudo norte-americano que envolveu 51 casas de repouso e quase 20.000 residentes revelou que 11 % dos idosos já tinham úlceras na admissão [16]. A incidência de novas escaras em um ano foi de 13%, e pacientes diabéticos têm aproximadamente três vezes mais risco de adquirirem escaras [17]. A deficiência de zinco e de vitaminas A e E são elementos que freqüentemente estão ausentes na dieta de pacientes crônicos e que podem contribuir para dificuldade de cicatrização de feridas [18].
A infecção do trato urinário (I.T.U.) é das mais comuns no homem com mais de 65 anos, podendo levar à internação hospitalar, com grandes preju¬ízos para o paciente. A bactéria que mais comumente causa o I.T.U. é chamada Escherichio Coli, responsável por 80% a 85% dos casos. As doenças da próstata, prolapso vesical ("queda da bexiga"), presença de cálculos urinários, e as doenças que causam disfunção da bexiga como na seqüela de AVE, demências, Diabetes Mellitus, dentre outros, podem contribuir para o aparecimento da infecção urinária. A presença de incontinên¬cia urinária também pode contribuir para a infecção urinária, devido ao uso de sonda vesical, predispondo à infecção. No entanto, a própria hospitalização freqüente pode levar à contaminação por bactérias mais resistentes aos antibióticos, evoluindo para um quadro mais grave [19].
As alterações pulmonares que fazem parte do processo de envelhecimento normal, tais como a redução da elasticidade da musculatura intercostal e a redução da capacidade vital, favorecem o aumento de bactérias e o perigo de uma pneumonia. Existe uma redução dos mecanismos de defesa, por isso é tão importante a vacinação do idoso contra a gripe e pneumonia. No idoso, o comprometimento respiratório pode estar relacionado ao sedentarismo; como não necessitam de adaptação ventilatória ao esforço, os idosos não percebem as dificuldades respiratórias e, quando internados este quadro tende a se agravar [20,21].
As doenças do trato gastrintestinal nos idosos são influenciadas pelas alterações do processo digestivo. Dentre estas, destacamos as alterações dentárias, as relativas ao mecanismo de deglutição, redução das secreções gástricas e enzimáticas, as relativas à redução do tônus da musculatura intestinal, e a lentificação nos reflexos [22]. O resultado é uma tendência ao engasgamento, e quando isso ocorre pode provocar infecção, levando a uma pneumonia. Há também problemas na absorção de nutrientes, e observa-se uma peristalse mais lenta; nos idosos restritos ao leito a peristalse é mais lenta ainda. Além disso, tendem a ingerir menor quantidade de alimentos, favorecendo a constipação intestinal [23].
Cerca de metade a três quartos das mortes por causas cirúrgicas referem-se a idosos [11]. Isto se deve à maior co-morbidade que eles apresentam, e também à apresentação atípica de situações de emergência, retar¬dando o diagnóstico. As cirurgias de urgência em geriatria têm uma mortalidade de 21 %, enquanto que as eletivas levam à morte em apenas 1,9% dos casos [24]. Neste sentido, o retardo numa indicação cirúrgica pode, muitas vezes, constituir uma iatrogenia [19].
Os efeitos colaterais de drogas são o tipo mais comum de eventos adversos em idosos. Segundo Doucet et al.[25], 20% dos casos requerem hospitalização. Em instituições, a prevalência pode chegar a 32%, muitas vezes pela falta de reavaliação da terapêutica inicial¬mente instituída [26]. Outra causa freqüente de iatrogenia é a prescrição pouco clara. Um estudo norte-americano relatou uma diminuição de 55% dos erros na administração de medicamentos quando a prescrição foi computadorizada [27].
O câncer, na maioria dos casos, ocorre após os 60 anos. Esta maior incidência no idoso se deve ao fato de que cerca de 80% de todos os cânceres estão relacionados, direta ou indiretamente, ao tempo de exposição a agentes cancerígenos, sendo, atualmente, a segunda causa de morte no Brasil, logo após as doenças cardiovasculares [28]. Os órgãos mais freqüentemente atingidos, por ordem de freqüência são: no homem, a pele, a próstata, o pulmão, o estômago e o intestino; na mulher, a mama, a pele, o colo do útero, o intestino, o estômago e o pulmão; além do sangue e o sistema linfático (leucemias e linfomas) em ambos os sexos [29].
Segundo Camarano [9], a taxa de utilização da internação na faixa de 80 e mais anos é três vezes maior que a da faixa etária de 55 a 59 anos. Quanto à questão dos custos, verificou-se que o custo médio mais elevado ocorre na faixa etária de 60 a 69 anos, tornando-se decrescentes com a idade, revelando que, pelo menos no que se refere ao SUS, a elevação do custo com atenção médica-¬ hospitalar aos idosos não está relacionada ao aumento do custo dos procedimentos. A elevação de custos está relacionada à taxa de utilização, e as medidas de saúde pública que objetivem uma melhor atenção ao idoso não precisam, necessariamente, elevar as despesas com saúde, mas sim substituir a quantidade de procedimentos de internação pela qualidade desse serviço, reduzindo assim as taxas de utilização, de forma que o paciente volte menos vezes ao hospital. Alternativas concretas para a realização desse objetivo podem ser os programas de saúde em domicílio e a internação domiciliar.
Pelos dados apresentados, fica evidente o impacto que o envelhecimento da população brasileira produz no setor de Saúde, principalmente no sistema hospitalar. Os gestores de saúde no País devem estar atentos para este fato, e para o crescimento da população que estará envelhecendo, nas quatro próximas décadas. Isso representa um grande desafio para o sistema de saúde, que poderá ter seus leitos hospitalares bloqueados e, pior, sem responder adequadamente às necessidades de saúde dessa população. Acrescenta-se a este desafio o pequeno número de profissionais de Saúde capacitados para o atendimento de idosos (geriatras e gerontólogos) e a falta da fisioterapia como prioridade dentre as alternativas eficientes ao atendimento à saúde dessa população.
Entre os novos modelos que vêm sendo discutido para o enfrentamento desses problemas, ganham destaque as propostas de desospitalização e a ampliação do uso da assistência domiciliar [30]. Rebelatto e Morelli [14] sugerem que, em se tratando de reabilitação, a fisioterapia mais intensa seja instituída precocemente na internação hospitalar, para ser mais efetiva e estendida para o domicílio, sem interrupção. Odenheimer [31] e Góis [32] afirmam que muitos dos declínios neurológicos geriátricos podem ser revertidos ou estabilizados com a fisioterapia precoce.
O Sistema Único de Saúde (SUS) apresenta atualmente como estratégia o Plano Nacional de Saúde, que está expresso de modo a objetivar as intenções e os resultados a serem buscados no período de 2004 a 2007, traduzidos em objetivos, diretrizes e metas que possam responder às necessidades da população e que se constituam como referência para os gestores e para o controle social do próprio SUS. Cabe ressaltar também que, para a operacionalização do Plano Nacional são fundamentais as definições das responsabilidades de cada ente governamental, de cada nível do Sistema e de cada serviço, de modo a se produzirem ações integrais consoantes com as necessidades das respectivas populações e de promoção da eqüidade social [33].
O presente estudo inscreve-se nessa linha de preocupações, tendo como objetivo comparar as sete maiores freqüências de morbidade hospitalar em idosos, no ano de 2005 com o ano de 1994, procurando contribuir para consolidar o conhecimento sobre as necessidades da população em foco.
MATERIAL E MÉTODOS
Desenho do Estudo
A presente pesquisa desenvolveu um estudo de avaliação das informações obtidas na base de dados do DATASUS do Ministério da Saúde sobre a morbidade hospitalar no ano de 2005 e de 1994 em idosos. Em sua estruturação foram consideradas as etapas especificadas por Fletcher & Fletcher [34].
Para a avaliação das internações hospitalares estudadas foram comparados os anos de 2005 e o de 1994, sendo utilizada como unidade geográfica de análise o Brasil. Adicionalmente, procedeu-se ao cálculo das taxas de internações hospitalares brutas e ajustadas para as sete maiores freqüências.
Fontes de Dados
O instrumento da coleta de dados foi o DataSUS, que contém um sistema de informática de informação em saúde disponível pela internet. Os dados de internações hospitalares foram originados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/MS). Para verificar as morbidades hospitalares, consultou-se o website http://www.datasus.gov.br, onde é possível descobrir tanto a distribuição de internações por faixa etária como também por sexo [35].
No Brasil, o Sistema de Informações Hospitalares (SIH) [36] representa uma fonte de dados de grande importância para o conhecimento do perfil epidemiológico da morbidade hospitalar, pois diversos trabalhos na área de idosos, como a Política Nacional do Idoso, tiveram como fonte a utilização dos dados do DataSUS. Veras [6], Camarano [9], Lima-Costa et al. [37] e Oliveira, Klein & Silva [7], utilizaram-se também das taxas do DataSUS.
A utilização do DataSUS para outros trabalhos em áreas de não-idosos também se verifica no caso do IBGE [38] e na Auto-instrução em análise de situações da endemia de hanseníase [39], dentre outros. Desse modo, fica claro o nível de aceitação desta fonte pela comunidade científica, e o resultado dessas pesquisas revertendo em subsídios para o próprio SUS.
A equipe do DataSUS desenvolveu ainda um SIG de fácil utilização para acesso e visualização cálculo de estatísticas básicas para dados de saúde, disponível na Internet: o TABWIN [36].
Deve-se ressaltar que, para a realização da avaliação e comparação, tem-se que ir além da estatística convencional e da mera visualização de dados. É preciso acoplar, aos SIGs tradicionais, as ferramentas de tratamento dos dados. Como exemplo, a seleção da população idosa e do ano para o estudo.
Os sujeitos selecionados, atendiam ao seguinte critério de inclusão: ter 60 anos de idade ou mais, no ano de 1994 e no ano de 2005.
Análise de Dados
Inicialmente foram calculadas as taxas específicas de internação, em 1994 e em 2005. A seguir, selecionaram-se as sete doenças com as maiores freqüências de 2005, para compor um quadro comparativo com o ano de 1994. As taxas de internações com as sete maiores freqüências foram ajustadas, com seus respectivos intervalos de confiança de 95%. As taxas foram ajustadas empregando-se o método direto de padronização [40] utilizando-se como referência a população mundial [28] e o Censo Demográfico da População Residente - Brasil [38]. O método direto de padronização permite que comparações entre períodos ou entre locais possam ser realizadas ajustando para possíveis diferenças na estrutura das populações que estão sendo comparadas. Os intervalos de confiança de 95% das taxas padronizadas foram calculados tomando por base o erro-padrão para proporções em amostras estratificadas [41]. As análises foram realizadas empregando o programa Epidat 3.1 [42].
Considerações éticas
Este estudo faz parte de uma pesquisa maior em que os procedimentos de regularização junto ao comitê de ética em pesquisa da HUPE/UERJ foram realizados e aprovados (1607 – CEPE / HUPE), conforme a resolução número 196 sobre pesquisa envolvendo seres humanos de 10 de outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde.
RESULTADOS
O total de morbidade hospitalar encontrada nos indivíduos com 60 anos ou mais foi de 2.539.067 registros no ano de 1994 e 2.224.147 no ano de 2005, que deram origem ao quadro (ver Quadro 1), que será apresentado a seguir.
Inserir Quadro 1
Na segunda fase da pesquisa, o Quadro 1 foi considerado apenas os sete maiores valores de freqüência de morbidade hospitalar apresentados no ano de 2005, para serem comparadas com os valores apresentados no ano de 1994 para as mesmas morbidades dando origem ao Quadros 2, a Tabelas 1 e ao Gráfico 1.
Inserir Quadro 2
Inserir Tabela 1
Inserir Gráfico 1
Discussão
Tendo como referência as taxas ajustadas da Tabela 1 do ano de 2005, tanto por faixa etária quanto por sexo, foram encontradas as seguintes sete maiores freqüências de morbidade hospitalar nos idosos:
A primeira doença que se destacou em 2005 (28%) com maior número de casos foram as doenças do aparelho circulatório, resultado compatível com a literatura da área. Este panorama não se modificou em comparação com o ano de 1994 (32%), pois já ocupava a liderança e se manteve na frente das demais morbidades ao longo deste período; porém em 2005 houve uma redução de 4% dessas taxas, o que sugere um efeito dos programas iniciais de combate à hipertensão. Esta redução é significativa e estimula o investimento, de forma mais intensiva, em programas preventivos e informativos nesta área.
A segunda doença encontrada em maior número nas internações no ano de 2005 (17%) foram as doenças do aparelho respiratório, que também diminuíram 2% em comparação com 1994 (19%), porém mantiveram esta mesma classificação desde 1994. Esta redução de 1% pode estar associada ao programa de vacinação dos idosos (influenza), e também com a prática de estimular a redução da internação, concorrendo para diminuir os efeitos da infecção hospitalar e da iatrogenia, pois, uma vez acamados, os idosos ficam predispostos aos acometimentos pulmonares.
A terceira doença em maior número encontrada em 2005 (10%) foram as doenças do aparelho digestivo, que aumentaram 2% em comparação com 1994 (8%), mantendo a mesma tendência de sua classificação até 2005, pois em 1994 elas também ocupavam o terceiro lugar. Este aumento pode estar relacionado ao aumento de doenças relacionadas ao consumo em demasia de algumas medicações (anti-inflamatórios), que em geral afetam a parte digestiva, e com o aparecimento maior de úlceras e gastrite. Problemas dietéticos (má alimentação) também são uma característica dos grandes centros urbanos, onde se vivencia a falta de tempo, e a cultura moderna, que leva ao consumo exagerado de fast-food e dos alimentos em conserva, que prejudicam o funcionamento intestinal, que já é debilitado no idoso.
A quarta doença é a neoplasia, que merece um preocupação maior, pois saiu de uma classificação de 6º lugar em 1994 para o 4º lugar em 2005 (8%), com um aumento de 4%, representando o dobro de 1994 (4%). Isto demonstra ser ela um ponto importante a pesquisar e sinalizar, tanto para o governo quanto para a sociedade. Recomenda-se, por medida de precaução, informar os serviços de saúde dos tipos de neoplasia mais prevalentes, no sentido de alertar o profissional de saúde para estar atento à detectação deste mal da forma mais precoce possível, evitando o aumento destes números. Também se pressupõe que este resultado está compatível com o aumento observado das neoplasias do sexo masculino em relação às do sexo feminino, em 2005, quando comparado ao ano de 1994; o que pode ser atribuído ao aumento de neoplasias em próstata nos últimos anos.
Em quinto lugar temos as doenças infecciosas e parasitárias, que em 2005 registraram 7% e mantiveram basicamente o mesmo percentual em 1994 (7%), porém desceram de classificação em 2005, pois em 1994 ocupavam o quarto lugar. Isto se deu em virtude do aumento das neoplasias, empurrando as doenças infecciosas e parasitárias para o quinto lugar. Tal resultado carece de maiores pesquisas, pois pressupõe-se que em termos de doenças infecciosas e parasitárias praticamente nada mudou, trazendo um questionamento sobre a eficácia das campanhas e programas nesta área para os idosos, os quais devem ser revistos. Fica evidente que, no Brasil, mesmo tendo mudado o perfil epidemiológico das doenças crônicas, ainda não se tem medidas de forma abrangente que pudessem diminuir esses números, demonstrando que o perfil epidemiológico anterior ainda é um problema para o País. Ressalta-se também que este problema pode está ligado à falta de saneamento básico na maioria dos municípios brasileiros.
Em sexto lugar aparecem as doenças genitourinárias: em 2005 (6%), mantiveram basicamente o mesmo percentual do ano de 1994 (6%), porém desceram na classificação geral em 2005, pois em 1994 ocupavam o quarto lugar. Isto se deu devido ao aumento das neoplasias, que empurraram as doenças genitourinárias para o sexto lugar. Este resultado demonstra que praticamente nada mudou, podendo sugerir novos estudos e a revisão das campanhas e programas nesta área. Percebe-se que essas doenças podem estar relacionadas à fragilidade dos idosos e à iatrogenia, onde o idoso, já fragilizado por uma doença principal, estaría propenso às infecções de uma meneira geral, e em particular as do aparelho genitourinário, que estão intimamente ligadas à infecção hospitalar.
No sétimo lugar temos as lesões e envenenamentos, que em 2005 (5%) aumentaram 1% em comparação com 1994 (4%), descendo sua classificação geral em 2005, pois em 1994 ocupavam o sexto lugar. O aumento destas taxas sugere novos estudos e coloca-se em questão a influência das quedas nos idosos como um dos fatores de maior destaque para esta morbidade. Deve também incentivar a importância dos cuidados relacionados após a alta, para diminuir a taxa de reinternação.
As doenças endócrinas nutricionais e metabólicas, apesar de não aparecerem entre as sete primeiras, merecem ser comentadas porque, embora ocupem o 8º lugar em 2005, seu percentual era de 4% em 1994 e aumentou para 5% em 2005. Este aumento de 1% nos idosos é um dos motivos de estudos recentes e de preocupação atuais, devido ao aumento da obesidade na população em geral, e da diabetes, que está ocorrendo em proporções cada vez maiores e em faixas etárias cada vez mais baixas.
De forma mais abrangente, ao se comparar o comportamento das taxas ajustadas de morbidade hospitalar dos anos de 1994 e 2005 em relação à evolução do tempo, pode-se verificar: que houve um padrão de comportamento decrescente nas doenças do aparelho circulatório e do aparelho respiratório; que houve um padrão de comportamento crescente nas doenças do aparelho digestivo, nas neoplasia e nas lesões e envenenamentos; e que houve um padrão de comportamento praticamente inalterado nas doenças genitourinárias e nas doenças infecciosas e parasitárias.
CONCLUSÃO
A respeito das estruturas de atendimento, tende-se a recomendar uma estratégia integrada da família com o hospital geriátrico, e, para os portadores de incapacidade funcional severa, a assistência domiciliar. A assistência domiciliar não pode ser considerada um substituto dos tratamentos hospitalares, porém necessita ser acoplada ao sistema de saúde, permitindo assim que se limite o recurso à hospitalização dos idosos. No entanto, nada disto terá efeito se a falta de difusão do conhecimento geriátrico junto aos profissionais de saúde não for resolvida. Decisivamente, a dificuldade na abordagem terapêutica do paciente idoso é o que leva a um atendimento de baixa qualidade e à iatrogenia.
O período pós-hospitalização é fonte de preocupação nas pesquisas recentes, pois normalmente o idoso não consegue retornar às suas atividades diárias anteriores à internação, contribuindo para aumentar o número de idosos com limitações e incapacidades geradas pelas doenças crônicas no envelhecimento. Este quadro é agravado pela falta de encaminhamento e acesso à reabilitação precoce do idoso após a sua hospitalização. Isto é preocupante, pela perspectiva do aumento desses casos, o que reflete diretamente na saúde pública.
Mediante os resultados desta pesquisa pode-se concluir que no Brasil, a morbidade hospitalar em idosos mantém o predomínio das doenças do aparelho circulatório, ao mesmo tempo em que se observa a não-redução das doenças infecciosas e parasitárias; e ainda sinaliza-se o aumento recente e acentuado das neoplasias.
Em se tratando de saúde pública, sugere-se que as doenças com presença crescente ou inalterada nos registros do DataSUS sejam alvo de maiores pesquisas e atenções. Sinaliza-se, em especial, o aumento acentuado da neoplasia e a não-redução das doenças infecciosas e parasitárias; com relação às medidas que visem diminuir as morbidades hospitalares prevalentes, percebe-se a necessidade urgente de ampliar as assistências domiciliares para a melhoria da saúde dos idosos e, conseqüentemente, para limitar o recurso à hospitalização.
Considerações
A comparação das taxas de morbidade hospitalar padronizadas, observadas em nosso estudo, corroboram os resultados de pesquisas semelhantes da área, mas mesmo assim essa afirmação deve ser feita com cautela: os valores encontrados podem variar de acordo com a população de referência e das faixas etárias utilizadas no processo de padronização. Além disto, outros fatores devem ser considerados, entre eles o fato de o SIH/SUS ter sido concebido para operar o sistema de pagamento de internação nos hospitais contratados pelo Ministério da Previdência; em 1986, essa incubênçia foi estendida aos Em 1986, foi estendido aos hospitais filantrópicos; em 1987, aos universitários e de ensino; e, em 1991, aos hospitais públicos municipais, estaduais e federais (administração indireta e outros ministérios). Mediante a consulta do manual do SIH [36], verificou-se que esse relata reunir informações apenas sobre 60-70% das internações hospitalares realizadas no País. O documento básico é a Autorização de Internação Hospitalar (AIH), que habilita a internação do paciente e gera valores para pagamento. O sistema disponibiliza dados de forma sistemática, com defasagem de apenas dois meses a partir da data de internação. A abrangência do sistema está limitada às internações no âmbito do SUS, excluindo, portanto, as que são custeadas diretamente ou cobertas por seguro-saúde. Eventuais reinternações e transferências do mesmo paciente a outros hospitais também não são identificadas, o que pode resultar em contagem cumulativa. Além disto, foram verificados nesta pesquisa (ver Quadros 1 e 2) números de morbidades hospitalares nas doenças de afecções originada no período perinatal e nas doenças de complicações da gravidez, parto e puerpério, sendo questionável o aparecimento destes número nestas doenças em se tratando de idosos e pacientes do sexo masculino.
Finalmente, recomenda-se que os estudos de comparações entre períodos sejam umas das ferramentas de uso na gestão, concorrendo assim para a melhoria da saúde nos idosos do Brasil.
Agradecimentos:
Os autores agradecem o financiamento e apoio da FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, pela bolsa de matrícula 2007.0038.3, estruturada pela lei nº 1.175, de 21-07-87; Secretaria do Estado do Rio de Janeiro - Governo do Estado do Rio de Janeiro.
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Imagem 1: Quadro 1.docImagem 2: Quadro 2.docImagem 3: Tabela 1.docImagem 4: Gráfico 1.doc