Avaliação
crítica das recomendações de energia
Rosely Sichieri
Os métodos utilizados para calcular os requerimentos de energia,
bem como as recomendações de energia para as populações
humanas foram, recentemente, objeto de revisão publicada
por Vasconcellos & Anjos1. Nesta apresentação
avalio a inadequação destas recomendações
com base nos dados de pesquisa de base populacional realizada no
município Rio de Janeiro em 19962, no ENDEF - Estudo Nacional
da Despesa Familiar, em 1974-753, e em outros estudos da literatura.
Na pesquisa realizada no Rio, avaliamos a razão entre a ingestão
calórica, estimada por um questionário semi-quantitativo
de freqüência de consumo, e o gasto energético,
estimado pelas equações da FAO/OMS/UNU de 19854, considerando
os indivíduos com atividade física moderada. Estas
equações levam em conta o sexo e o peso dos indivíduos
para o cálculo do metabolismo basal e este metabolismo basal
é multiplicado por um fator de atividade física. Valores
ao redor de 1,5 para esta razão são esperados em populações
sedentárias5. Vannucchi et al.6 estimaram que, para adultos
brasileiros no desempenho de atividades que envolvem esforço
físico leve, moderado ou intenso, os múltiplos de
metabolismo basal seriam 1,55; 1,8 e 2,0, respectivamente. Ocorre
que o peso corporal, que é a base destas estimativas, representa
massas livres de gordura, conseqüentemente tecidos com gasto
energético, muito distintos. Por exemplo, dois indivíduos
de mesmo peso e diferentes alturas têm necessariamente diferentes
massas livres de gordura. A massa livre de gordura também
se reduz com a idade. O relatório da FAO de 1985 já
apontava para a dificuldade de se utilizar os valores referentes
às recomendações para expressar a real necessidade
dos indivíduos. A 10a edição da RDA7 também
chamava a atenção para o fato de os fatores de atividade
serem aproximações grosseiras dos requerimentos de
energia e, em seu terceiro capítulo, sugeria que os requerimentos
energéticos para indivíduos desnutridos ou com sobrepeso
fossem ajustados, utilizando-se o peso normal para a altura. Assim
sendo, é reconhecida a necessidade de uma ampla revisão
dos pressupostos referentes às recomendações
de energia8.
A titulo de exemplo, estimando o gasto energético para adultos
do Município do Rio de Janeiro, considerando o peso adequado
segundo altura e utilizando como peso adequado o IMC de 22 kg/m2,
a razão entre consumo médio e gasto médio ficou
próxima a 1 para os homens. Esta situação é
pouco provável em uma população com prevalência
alta e crescente de obesidade. Para mulheres, a razão do
consumo energético com as estimativas de gasto, fixando-se
um IMC de 22Kg/m2, indicou que as mulheres têm um consumo
de energia que se encontra, aproximadamente, 50% acima do valor
estimado. Sem considerar o peso ideal para a estimativa de gasto,
o consumo entre as mulheres variou de 15 a 32% acima do gasto energético
estimado. Para os homens, o excesso de consumo frente aos gastos
só se expressou no cálculo com o peso corrigido, uma
vez que os valores ajustados ficaram próximos a 1.