Brazilian Journal of Epidemiology
Volume 5 - Suplemento 1 - Dezembro 2002
ÍNDICE

Avaliação crítica das recomendações de energia
Rosely Sichieri

Os métodos utilizados para calcular os requerimentos de energia, bem como as recomendações de energia para as populações humanas foram, recentemente, objeto de revisão publicada por Vasconcellos & Anjos1. Nesta apresentação avalio a inadequação destas recomendações com base nos dados de pesquisa de base populacional realizada no município Rio de Janeiro em 19962, no ENDEF - Estudo Nacional da Despesa Familiar, em 1974-753, e em outros estudos da literatura.
Na pesquisa realizada no Rio, avaliamos a razão entre a ingestão calórica, estimada por um questionário semi-quantitativo de freqüência de consumo, e o gasto energético, estimado pelas equações da FAO/OMS/UNU de 19854, considerando os indivíduos com atividade física moderada. Estas equações levam em conta o sexo e o peso dos indivíduos para o cálculo do metabolismo basal e este metabolismo basal é multiplicado por um fator de atividade física. Valores ao redor de 1,5 para esta razão são esperados em populações sedentárias5. Vannucchi et al.6 estimaram que, para adultos brasileiros no desempenho de atividades que envolvem esforço físico leve, moderado ou intenso, os múltiplos de metabolismo basal seriam 1,55; 1,8 e 2,0, respectivamente. Ocorre que o peso corporal, que é a base destas estimativas, representa massas livres de gordura, conseqüentemente tecidos com gasto energético, muito distintos. Por exemplo, dois indivíduos de mesmo peso e diferentes alturas têm necessariamente diferentes massas livres de gordura. A massa livre de gordura também se reduz com a idade. O relatório da FAO de 1985 já apontava para a dificuldade de se utilizar os valores referentes às recomendações para expressar a real necessidade dos indivíduos. A 10a edição da RDA7 também chamava a atenção para o fato de os fatores de atividade serem aproximações grosseiras dos requerimentos de energia e, em seu terceiro capítulo, sugeria que os requerimentos energéticos para indivíduos desnutridos ou com sobrepeso fossem ajustados, utilizando-se o peso normal para a altura. Assim sendo, é reconhecida a necessidade de uma ampla revisão dos pressupostos referentes às recomendações de energia8.
A titulo de exemplo, estimando o gasto energético para adultos do Município do Rio de Janeiro, considerando o peso adequado segundo altura e utilizando como peso adequado o IMC de 22 kg/m2, a razão entre consumo médio e gasto médio ficou próxima a 1 para os homens. Esta situação é pouco provável em uma população com prevalência alta e crescente de obesidade. Para mulheres, a razão do consumo energético com as estimativas de gasto, fixando-se um IMC de 22Kg/m2, indicou que as mulheres têm um consumo de energia que se encontra, aproximadamente, 50% acima do valor estimado. Sem considerar o peso ideal para a estimativa de gasto, o consumo entre as mulheres variou de 15 a 32% acima do gasto energético estimado. Para os homens, o excesso de consumo frente aos gastos só se expressou no cálculo com o peso corrigido, uma vez que os valores ajustados ficaram próximos a 1.