Interdisciplinaridade
e promoção da saúde: o papel da antropologia.
Algumas idéias simples a partir de experiências africanas
e brasileiras
Claude Raynaut
A
interdisciplinaridade entre as ciências sociais e as disciplinas
médicas é, sem dúvida, um dos requisitos mais
freqüentemente citados no tocante à abordagem dos problemas
de saúde pública, bem como àqueles que se colocam
em um plano individual.
Como fazer cooperar disciplinas que, como a epidemiologia, tentam
entender a maneira como as doenças se espalham no seio de
amplos conjuntos populacionais ou como elas acometem de maneira
diferente várias categorias de população dentro
desses conjuntos, com disciplinas que estudam como esses conjuntos
são estruturados, funcionam, se transformam em função
se não de “leis”, pelo menos de algumas regularidades,
necessidades próprias, como sistemas sociais organizados?
Como fazer com que as disciplinas clínicas que lidam com
pessoas doentes, pretendendo achar soluções para as
causas de seu sofrimento físico, integrem o fato de a essência
da pessoa humana ir muito além do seu corpo biológico
- sendo ela um ser que pensa, imagina, simboliza, vive tanto de
afetos e fantasmas quanto de alimentos materiais? Como fazer com
que aqueles especialistas cuja atuação se dirige aos
indivíduos - seja para curá-los ou para educá-los
- admitam o fato de cada pessoa ser inserida em redes, estruturas,
formas de pensamento coletivas que até certo ponto marcam
e orientam seu comportamento?
Mas o problema não se coloca apenas do lado das disciplinas
médicas e biológicas que teriam que aceitar os lados
imateriais e sociais da realidade humana. A dificuldade reside também
em como conseguir que as ciências psicológicas e sociais
admitam que o ser humano não é constituído
somente de um espírito, mas também de um corpo. Como
conseguir que elas admitam também que as sociedades humanas
não podem ser analisadas apenas na sua dimensão cultural,
levando unicamente em conta suas representações, seus
modelos de comportamento, o modo como elas organizam as relações
entre seus membros? Como conseguir que aquelas ciências humanas
integrem essa evidência de que os sistemas sociais só
existeme seus objetos e estratégias.