Brazilian Journal of Epidemiology
Volume 5 - Suplemento 1 - Dezembro 2002
ÍNDICE

Interdisciplinaridade e promoção da saúde: o papel da antropologia. Algumas idéias simples a partir de experiências africanas e brasileiras
Claude Raynaut

A interdisciplinaridade entre as ciências sociais e as disciplinas médicas é, sem dúvida, um dos requisitos mais freqüentemente citados no tocante à abordagem dos problemas de saúde pública, bem como àqueles que se colocam em um plano individual.
Como fazer cooperar disciplinas que, como a epidemiologia, tentam entender a maneira como as doenças se espalham no seio de amplos conjuntos populacionais ou como elas acometem de maneira diferente várias categorias de população dentro desses conjuntos, com disciplinas que estudam como esses conjuntos são estruturados, funcionam, se transformam em função se não de “leis”, pelo menos de algumas regularidades, necessidades próprias, como sistemas sociais organizados?
Como fazer com que as disciplinas clínicas que lidam com pessoas doentes, pretendendo achar soluções para as causas de seu sofrimento físico, integrem o fato de a essência da pessoa humana ir muito além do seu corpo biológico - sendo ela um ser que pensa, imagina, simboliza, vive tanto de afetos e fantasmas quanto de alimentos materiais? Como fazer com que aqueles especialistas cuja atuação se dirige aos indivíduos - seja para curá-los ou para educá-los - admitam o fato de cada pessoa ser inserida em redes, estruturas, formas de pensamento coletivas que até certo ponto marcam e orientam seu comportamento?
Mas o problema não se coloca apenas do lado das disciplinas médicas e biológicas que teriam que aceitar os lados imateriais e sociais da realidade humana. A dificuldade reside também em como conseguir que as ciências psicológicas e sociais admitam que o ser humano não é constituído somente de um espírito, mas também de um corpo. Como conseguir que elas admitam também que as sociedades humanas não podem ser analisadas apenas na sua dimensão cultural, levando unicamente em conta suas representações, seus modelos de comportamento, o modo como elas organizam as relações entre seus membros? Como conseguir que aquelas ciências humanas integrem essa evidência de que os sistemas sociais só existeme seus objetos e estratégias.