Epidemiologia,
promoção da saúde e o paradoxo do risco
José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres
Observa-se,
em tempos recentes, em particular nos países latino-americanos,
uma importante tendência de transitar, nos modelos de organização
da assistência à saúde, da priorização
quase absoluta de práticas centradas na doença, na
assistência curativa, na intervenção medicamentosa,
para outros que buscam orientar-se ativamente em direção
à saúde, isto é, às práticas
preventivas, educação em saúde e à busca
da qualidade de vida, de um modo mais geral1.
No plano do fazer, isto é, das práticas de assistência
institucionalizadas, essa ativa orientação pela idéia
de saúde está bem representada pelas recentes propostas
de vigilância da saúde2,3 e promoção
da saúde4,5, que têm recebido uma vigorosa aceitação
e importantes investimentos técnicos no meio sanitário
brasileiro.
A vigilância da saúde, ampliando escopo e métodos
da tradicional vigilância epidemiológica, ainda permanece
mais estreitamente relacionada ao controle dos agravos como forma
de cuidar da saúde, mas já realiza um deslocamento
substantivo quando vincula esse controle a processos regionalizados
e democratizados de definição de preocupações
prioritárias e de suas correlatas estratégias de intervenção
e monitoramento. Além disso, incorpora objetos de vigilância
mais amplos que as antigas doenças de notificação
compulsória, como as questões nutricionais, ambientais,
a saúde mental, as relações entre saúde
e trabalho ou a violência. De outro lado, busca também
acompanhar não apenas agravos e riscos, mas a própria
adesão a cuidados de saúde, como a adoção
de medidas de autocuidado, a freqüência a consultas,
a realização de screenings, entre outros.
As recentes propostas de promoção da saúde
guardam estreitas afinidades com essa concepção ampliada
de vigilância. Estão radicadas, em essência,
na mesma compreensão do que seja a tarefa de assistir à
saúde e, portanto, de seus objetos e estratégias.