Brazilian Journal of Epidemiology
Volume 5 - Suplemento 1 - Dezembro 2002
ÍNDICE

Epidemiologia, promoção da saúde e o paradoxo do risco
José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres

Observa-se, em tempos recentes, em particular nos países latino-americanos, uma importante tendência de transitar, nos modelos de organização da assistência à saúde, da priorização quase absoluta de práticas centradas na doença, na assistência curativa, na intervenção medicamentosa, para outros que buscam orientar-se ativamente em direção à saúde, isto é, às práticas preventivas, educação em saúde e à busca da qualidade de vida, de um modo mais geral1.
No plano do fazer, isto é, das práticas de assistência institucionalizadas, essa ativa orientação pela idéia de saúde está bem representada pelas recentes propostas de vigilância da saúde2,3 e promoção da saúde4,5, que têm recebido uma vigorosa aceitação e importantes investimentos técnicos no meio sanitário brasileiro.
A vigilância da saúde, ampliando escopo e métodos da tradicional vigilância epidemiológica, ainda permanece mais estreitamente relacionada ao controle dos agravos como forma de cuidar da saúde, mas já realiza um deslocamento substantivo quando vincula esse controle a processos regionalizados e democratizados de definição de preocupações prioritárias e de suas correlatas estratégias de intervenção e monitoramento. Além disso, incorpora objetos de vigilância mais amplos que as antigas doenças de notificação compulsória, como as questões nutricionais, ambientais, a saúde mental, as relações entre saúde e trabalho ou a violência. De outro lado, busca também acompanhar não apenas agravos e riscos, mas a própria adesão a cuidados de saúde, como a adoção de medidas de autocuidado, a freqüência a consultas, a realização de screenings, entre outros.
As recentes propostas de promoção da saúde guardam estreitas afinidades com essa concepção ampliada de vigilância. Estão radicadas, em essência, na mesma compreensão do que seja a tarefa de assistir à saúde e, portanto, de seus objetos e estratégias.